Atualizado em 17/02/2012 00:00:01
Carandiru é um bairro de São Paulo. Nome estranho que suponho ser de origem tupi-guarani, mas não consegui descobrir seu significado. Lá ficava a Casa de Detenção de São Paulo que na sexta-feira, 2 de outubro de 1992, às vésperas da eleição para o prefeito da cidade, foi invadido pela polícia militar paulista virando uma chacina: ao todo foram cento e um mortos, entre bandidos e inocentes. A tragédia emocionou o país e teve repercussão internacional, incompetência e maldade. O conhecido médico Dráuzio Varella é autor do livro com o título ‘Estação Carandiru’, sobre as barbaridades cometidas, mais tarde transformado no filme brasileiro-argentino do cineasta Héctor Babenco, Carandiru, de 2002.
A Casa de Detenção foi construída em 1920, segundo os planos do arquiteto Samuel das Neves, inspirada numa famosa prisão francesa da época, considerada então de concepção moderna.
Toda cidade tem seus monumentos, Búzios se orgulha do grupo escultural dos ‘Três Pescadores’, de Christina Mota, quase em frente à casa onde várias vezes se hospedou o Presidente Juscelino Kubistchek e que hoje exibe sua escultura sentado apreciando o mar. Da mesma Christina Mota se encontra na Orla Bardot a deliciosa figura de Brigitte Bardot ao lado de sua mala.
Mas agora Búzios ganhou um novo monumento: o Carandiru na pracinha da Rua Pau Brasil, no bairro Bosque de Geribá. Não ouso mostrar a fotografia, prefiro que os buzianos e os turistas que visitam a charmosa cidade possam contemplar e se escandalizar com o horrível prédio: um bloco quadrado ocupando todo o terreno e enfeando a rua, verdadeiro deboche aos moradores do bairro. Durante a construção nenhuma placa indicava o nome do arquiteto e os responsáveis pela obra.
Em crônica anterior neste mesmo local escrevi que no início da construção em setembro do ano passado procurei autoridades do governo para alertar sobre a ilegalidade de obra comercial em terreno destinado exclusivamente a fins residenciais. Imaginamos até que a obra tivesse sido embargada, pois esteve parada durante algumas semanas. Ledo engano.
Lemos que em Porto Alegre assaltantes de banco conseguiram passar as armas para dentro do banco com um dos bandidos numa cadeira de rodas se fazendo de aleijado e que, não podendo passar pela porta giratória, o segurança abriu a porta lateral. Só podemos admitir que a licença de construção da obra da Rua Pau Brasil foi obtida por meio de algum subterfúgio semelhante.
Búzios ficou conhecida, além da beleza natural, por sua arquitetura característica com grande emprego da madeira e, acima de tudo, as casas serem limitada a uma altura de telhado capaz de abrigar apenas dois pavimentos, a única cidade brasileira com essa característica. Viemos morar em Búzios na época em que o arquiteto mais conhecido era Otavinho, cioso em dar à cidade um aspecto próprio cobrindo os telhados com as telhas coloniais velhas, formadas nas coxas de escravos. Somos do tempo em que a arquitetura das casas da Rua das Pedras possuía um charme todo especial, hoje banalizada pelo concreto. Esse charme de outros tempos foi renovado por outro arquiteto de talento, Helio Pellegrino, com a reciclagem de portas e janelas antigas de demolição, criando prédios de uma beleza toda especial. Pouca coisa restou. O Pórtico, hoje deformado (digo, deformado, não reformado) é uma boa amostra
Não podemos compreender nem aceitar ao abandono de uma arquitetura de moradias cobertas por telhas vermelhas por inexpressivas telhas brancas em construções de concreto aparente.
Também não podemos compreender nem aceitar que as autoridades municipais tenham aprovado o esse monstruoso complexo do Carandiru buziano, verdadeira ofensa ao espírito da Cidade. Búzios vem crescendo, mas lamentavelmente perdendo ao mesmo tempo suas tradicionais e encantadoras características. A construção na Rua Pau Brasil é uma prova.
Colaborador: Redação
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