Atualizado em 11/02/2012 08:00:00
Despir-se de si e vestir-se de todos. Esta frase resume a essência de um cargo eletivo, e devia ser o motivo para o qual alguém se candidata a vereador, prefeito, ou deputado e etc.
Criemos aqui uma fábula. Como todos sabemos, uma fábula é uma história normalmente contada através de animais ou forças da natureza que apresentam características humanas. Então usemos dois personagens extraídos da Divina Comédia de Dante. Um, o Grifo, figura mitológica, que vem puxando a carruagem triunfal e aparece no canto XXIX do Purgatório, possui pata e corpo de leão e asa e cabeça de águia. Especialistas em Dante divergem quanto a representação deste animal, para uns ele representa Cristo, para outros o Papa. A carruagem Triunfal é a igreja. O outro personagem é Cérbero, figura também mitológica, representado por uma cão feroz de três cabeças, que guarda a porta do inferno não para que ninguém entre, e sim para que ninguém saia.
Pois bem, Grifo sabe que ao se candidatar a vereador sua pessoa deixará de existir, ele passará a representar os interesses coletivos, não se sujeitará a receber favores pessoais (ingressos, gratuidades em locais, espaços VIPs), e muito menos a usar o cargo para conseguir realizar obras ou coisas afins que o beneficiem diretamente, como por exemplo, asfaltar uma rua onde tem um terreno. Grifo está se candidatando porque a sua pessoa sofre com a miséria humana, e ele pretende mitigar o sofrimento do povo que, em última análise, o faz sofrer também.
Já Cérbero não, Cérbero está se candidatando a vereador para na verdade reforçar o seu poder enquanto pessoa. Ele quer ser vereador, por exemplo, para construir um puxadinho do restaurante do seu hotel na calçada, impedindo as pessoas de transitarem, mas, por ser vereador, não ser importunado pelo Prefeito. Ou seja, Cérbero quer ser vereador para reforçar-se de poder e chegar quase à impunidade, desconhecendo o desconforto que causa aos outros em benefício do seu próprio negócio. Ou mesmo, Cérbero quer se eleger vereador para ter acesso a convites especiais para jogos, eventos e etc. Ou ainda, quer ser vereador para mandar asfaltar uma rua onde possui um terreno e pretende valorizá-lo com o asfaltamento, ou para vender serviços seus para a prefeitura.
Talvez seja difícil para nós identificarmos quem poderia ser Grifo no estado atual da política, mas tenho certeza que vários saberão reconhecer os Cérberos que estão exercendo mandatos.
O fato é que a diferença entre Grifo e Cérbero é o que essencialmente chamamos de ética. Grifo sabe dizer não, sabe que sua alma e o sentido da sua vida são inegociáveis, e que os maiores prazeres da vida estão no amor e na solidariedade ao próximo. Cérbero não, Cérbero troca sua dignidade por benesses efêmeras que o transformem em alguém poderoso para os prazeres da sua própria carne.
E por aí, infelizmente, vamos seguindo. Com a ética contrariada, reconhecendo os Cérberos que lá estão por força do voto frágil de uma sociedade com níveis críticos de educação segundo o IDEB, e com dificuldade de encontrarmos algum Grifo. Mas ele existe, basta olharmos com cuidado e dedicarmos um pouco mais de atenção ao, reconheço, enfadonho processo eleitoral.
Colaborador: Redação
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