Atualizado em 28/01/2012 10:00:00
Justamente em um momento em que o lendário tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro vem acontecendo de forma mais velada e menos violenta (com a presença da Unidade de Polícia Pacificadora – UPP - e até do Exército em algumas comunidades), em Búzios, mais precisamente na Rua dos Goianos, em uma localidade conhecida como Imprensa, no Cruzeiro, o abuso e a maldade dos bandidos imperam. Armados com revólveres, eles ameaçam de surra, morte e despejo os moradores que não os deixam entrar em suas casas para consumir, esconder e traficar drogas ou fugir da Polícia. Já conseguiram expulsar pelo menos quatro famílias do local, que foram para lugares como Cem Braças e Unamar.
Quando os moradores não estão em casa, os traficantes pulam muros e fazem dos quintais alheios seus esconderijos, alguns nem tanto secretos. Quando passam na rua, as famílias ainda são alvos de zombaria, apelidos e risos dos meliantes. A situação já perdura há pelo menos dois anos. O som alto dos funks proibidões embala a feira de drogas que acontece a céu aberto, dia e noite, atraindo gente de todos os lugares e perturbando a comunidade local. Sem o consentimento do proprietário, um bar é também usado como ‘point’ de tráfico pela quadrilha. Há casos em que gangues rivais, inclusive de Cabo Frio, vão até lá levar um pouco mais de pânico a quem mora naquela pequena e humilde rua, cujos habitantes, aliás, já estão se habituando a não sair de casa nem para trabalhar, irem ao médico, à igreja, fazer compras ou levar os filhos à escola. Outra coisa a qual os moradores estão se habituando é a não confiar na eficácia das rondas da PM, pois segundo relatos, os policiais sabem quem são os traficantes, mas não tomam nenhuma atitude. Segundo informações as viaturas só passam uma vez por semana na localidade, ou quando são acionadas por moradores aflitos. Em ambos os casos, os carros apenas circulam rapidamente para em seguida irem embora. Raras exceções acontecem nos plantões de quarta-feira, quando os policiais costumam ser mais diligentes.
Entretanto, no sábado passado, um rapaz foi preso. José Carlos de Oliveira Salvado, o ‘Nane’, estava com 50 cápsulas, nove sacolés e 10 pedras de cocaína, 40 pedras de crack e R$ 111. Um usuário também chegou a ser levado pelos policiais, mas depois de ouvido foi liberado. Essa é a versão oficial. Porém, testemunhas garantem que foi bem maior o número de pessoas jogadas na Patamo, todos conhecidos criminosos da área. Por exemplo, Leonardo ‘Siri’. Menos de uma hora após ter entrado na viatura, retornou ao local onde fora teria sido detido, para se encontrar com comparsas, o que para a população é fato, no mínimo, muito estranho. No momento em que efetuavam sua prisão os policiais deixaram cair uma foto do próprio Leonardo, levando testemunhas oculares a crerem que os PM’s estivessem a sua procura. Leonardo é apontado como responsável pela expulsão de um morador que residia no bairro havia mais de 20 anos; o motivo seria as suspeitas infundadas de que o mesmo teria roubado uma carga de droga do meliante, apesar de a vítima não ser usuária.
Dos cerca de 10 traficantes que
compõem o bando que vem aterrorizando os moradores da localidade, além de Leonardo e José Carlos, estariam também elementos conhecidos como; Fabiano (que chegou a poucos dias da prisão e, segundo fontes, já estaria ‘aprontando’ novamente); Júnior; Jeferson (apelidado de ‘Pico’); Pedro Gonçalves (o ‘Bocudo’); Mariangela (a ‘Toquinha’, cujo vício do crack lhe leva a fumar na
frente de seus filhos, crianças), e Vando Orelhão (apontado como o líder a quem todos obedecem e quem distribui as drogas para o comércio). Vando, aliás, é mostrado como autor de pelo menos quatro mortes, todas praticadas com requinte de crueldade, uma delas a de um rapaz de 16 anos, há uns cinco de meses.
Denúncia de propinas e ação do Conselho de Segurança
Além dessas, outras das informações que chegaram até o PH esta semana, dizem respeito ao que os traficantes dizem na rua sobre os policiais. Não é preciso ter olhos e ouvidos muito bons para ver e ouvir Fabiano, frequentemente dizer que ‘falta dar mais R$500 a eles’, e que prefere que o pagamento seja em ‘grana viva’, e não em ‘cestas básicas ou serviços comunitários’. E que das outras duas vezes em que esteve preso, teve que pagar R$2.500 em cada, tendo para isso que vender uma motocicleta.
Procurado, o Conselho Comunitário de Segurança (CCS), representado pelo ex-presidente Joel Figueiredo, se pronunciou sobre o problema. Surpreso, limitou-se a alertar para que uma atuação maior da 5ª Cia na Rua dos Goianos seja conduzida em caráter de emergência, e disse que foi procurado pela Associação de Moradores da Vila Verde (localidade próxima à Imprensa), há pouco tempo, para que o CCS intermediasse um pedido à PM: que a guarnição, que atuava tão bem naquele bairro, não mudasse juntamente com a recente troca de Comando da Região. Figueiredo afirma que já fez a solicitação ao coronel Gilmar, do 25º BPM, que por sua vez já fez sabê-la na 5ª Cia. Mas, a bem da verdade, o Cruzeiro não é filiado à Associação de Vila Verde, e sim a uma espécie de ‘associação mista’ que cuida também da Rasa, Montevidéu, Boa Vista e Arpoador, cujo presidente há pouco mais de um ano é o senhor Fábio, que alega não saber nada sobre o problema.
Na última reunião do Conselho, o tenente Alcântara (que comanda a 5ª Cia a pouco mais de dois meses, desde que o tenente Lima e Silva teve que ausentar-se por questões pessoais), admitiu que o tráfico em toda a região que engloba a Rasa é complicado de se controlar. ‘Bem mais que em Cem Braças, por exemplo, onde o espaço geográfico é menor’, contou.
Colaborador: Bruno Almeida
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