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Quarta-feira , 23 de May 2012

Atualizado em 20/01/2012 10:00:00

Bachianas

Perdemos mais um grande pianista, Roberto Szidon, aos 70 anos, faleceu em Düsserdorf, na Alemanha. Assisti seus concertos de piano na Cidade do Cabo, na África do Sul, e anos depois em Berlim. Mas sua figura, sua personalidade e sua arte, essa não me esqueço. Para o pessoal de agora talvez não seja importante, hoje encontramos brasileiros por toda parte, na Antártica, onde temos uma base naval, e  talvez também no Polo Norte. Brasileiros legais e ilegais, turistas, industriais, empresários, estudantes, uns fazendo mestrado, outros fingindo que estudam, turistas fazendo compras de tudo que vêm na frente e artistas.
Anos atrás não era assim, era sempre agradável surpresa encontrarmos um turista ou qualquer brasileiro. Hoje somos globalizados, somos já uma população que vai para os duzentos milhões, antes os turistas estrangeiros vinham ao  Brasil, agora os brasileiros vão para o estrangeiro.
Durante os trinta anos que vivi fora do país conheci e acompanhei muitos pianistas, pintores , toda uma gama de artistas. Lembro-me de ter levado a percorrer Belgrado, o maestro Eleazar de Carvalho e esposa, numa “vitória”,  carro a cavalos, como os de Paquetá. O concerto fora na véspera, sucesso estrondoso do primeiro maestro brasileiro a reger no país então comunista, presidido pelo Marechal Tito.
Jacques Klein esteve mais de uma vez na Cidade do Cabo. Grande pianista de quem ficamos muito amigos. Naquela época a África do Sul vivia sob o regime do  apartheid e alguns artistas recusavam os convites para tocar no país.  Turibio Santos realizou uma turnê com seu violão. O mais simpático concerto foi em no aconchegante sala forrada de madeira, na Universidade de Stelembosh, de maravilhosa acústica.
 Em Berlim lembro-me que a pianista Cristina Ortiz, terminado o concerto, me implorou para irmos rápido para um restaurante, dizia ela que depois de tocar ficava com uma fome voraz. Merece referência a belo-horizontina  Mariluce Baeta que estudava canto em Berlim. Grande divulgadora da música erudita brasileira. Deu um concerto, financiando seu marido o aluguel da sala, que recebeu uma interessante crítica em Der Tagespiegel. O crítico alemão escrevera que era a primeira vez que ouvira Carlos Gomes e que fazia sua mea culpa como alemão por desconhecer o compositor com uma obra de tanto valor.
Fui testemunha de uma curiosa situação com o Maestro Heitor Villa-Lobos. Fora convidado para participar do juizado de um concurso de piano no México, em 1959.  Nunca havia estado no país. Em sua homenagem foi organizado um concerto de suas obras, com a orquestra nacional mexicana, no Palácio de Belas Artes. Como encarregado do setor cultural da nossa Embaixada, acompanhei o Maestro nessa noite. O concerto foi um grande sucesso.
Findo o concerto e os aplausos, juntamente com Dona Arminda, a ex-aluna e esposa do Maestro, encontrava-me no camarim do teatro. Villa-Lobos entrou segurando como de hábito entre os dedos o charuto.  A seguir batem na porta, fui atender, era o Embaixador da então chamada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Falando em francês dirigiu-se a Villa- Lobos  e, depois da apresentação, disse que recebera instruções de seu governo para convidá-lo a visitar a Rússia e reger concertos. Villa-Lobos, não se fez de rogado, respondendo imediatamente, agradecendo o convite, que se sentia muito honrado, lembrando sua admiração pelos compositores russos, nomeando alguns, mas que no momento não poderia aceitar, pois, para viver ,  contava com a regência de apresentações nos Estados Unidos e que, aceitasse ir à Rússia, os americanos não mais lhe concederiam visto para entrar nos Estados Unidos. O Embaixador respondeu que compreendia a situação, mas que o convite  permanecia de pé para a primeira oportunidade. Era o tempo da guerra fria, do governo Dutra que rompera as relações diplomáticas com a União Soviética.  O mais triste é que Villa-Lobos voltou ao Brasil e pouco depois, em 17 de novembro de 1959, faleceu.
 

Colaborador: Alfredo Rainho

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