Atualizado em 07/01/2012 00:00:00
Há uma aflição, uma urgência no ar. Não sei bem que fenômeno cabalístico acontece com a contagem dos meses, mas o fato é que no início tem um efeito especial. Muito diferente da chegada de qualquer outro mês, como maio ou setembro.
Não falo de acontecimentos externos, como a primavera ou as inversões térmicas. Quanto a isso, cada mês tem suas flores e suas dores. Refiro-me a sensações profundas, existenciais, que nos levam a acreditar que, com o início do ano, devemos tomar algumas providências urgentes.
Mas o que realmente começa, quando o ano comça? Que acontecimento mágico virá com janeiro, esse mês que imaginamos tão imaculado quanto uma agenda nova, e que não devemos poluir com as sobras do ano anterior? Por que essa ansiedade de acertar contas, cumprir promessas, realizar todos os rituais de purificação?
Pessoas têm uma maneira estranha de levar a vida. Parece que vivemos sob uma permanente sensação de culpa, de falta, de débito, de fracasso. Não acredito que esses sentimentos sejam inerentes à natureza humana. Sentir-se eternamente culpado só pode ser algum desvio de rota da humanidade, alguma distorção imposta, como uma condenação. O Universo sempre conspira a nosso favor se assim acreditarmos.
As mães acham que cometeram grandes erros na educação dos filhos; os homens sentem-se incompetentes diante dos desejos de suas parceiras; as mulheres carregam o fardo de achar que não são suficientemente dedicadas, ou bonitas, ou inteligentes, etc. Enfim, estamos o tempo todo descontentes com aquilo que somos e fazemos, prometendo sempre que, antes que o ano acabe (qualquer ano, todos os anos), a gente vai fazer tudo o que acha que deveria ter feito e não fez.
Assim, na maior correria, antes do fim do ano, ou no novo ano, vamos começar a fazer ginástica, estudar inglês, fazer terapia, retomar o tratamento dos dentes, arrumar o jardim, vamos... Essa lista não tem fim.
O fato é que uma lista como essa só serve para alimentar nossa sensação de incompetência. E esta, por sua vez, vem de certa onipotência, da fantasia de ter o controle dos acontecimentos, que leva a acreditar que nossas atitudes dependem simplesmente de um ato de vontade. Como se pudéssemos determinar o que cabe e o que não cabe em cada momento da vida. Mas é inútil brigar: já está definido de antemão que o que cabe é sempre o mais urgente ou o que está mais próximo e não o que nos parece ser fundamental. Essa é uma visão sistêmico-fenomenológica, quer dizer, é o que é.
Não adianta traçar grandes metas nem querer selar compromissos com o futuro. São as miudezas do cotidiano que nos ocupam. Acontecimentos e fatos passados em nosso sistema de alma que definem a pessoa que somos, traçam nosso destino. Não somos responsáveis, nesta vida, pelas situações da qual padecemos. Isto, também, está emaranhado em implicâncias e repetições dentro de nosso sistema familiar. Chega, então, uma hora em que a gente tem de acreditar que o futuro já chegou, não é amanhã nem no ano que vem: é hoje, aqui e agora. Todo dia, encarando, aceitando, reconhecendo tudo o que aconteceu e honrando os destinos de todos os envolvidos em nosso sistema familiar, em gerações passadas, bastando dizer sim a tudo o que rolou.
A pessoa que sou não é bem a que gostaria de ter sido. Não sou (nem nunca serei) perfeito, maravilhoso, fascinante. Sou apenas uma pessoa de meu tempo, bem-intencionada, mas bastante desajeitada, suficientemente sensível para perceber as necessidades e desejos do meu próximo, mas, na maioria das vezes, incompetente para atendê-los. E já aprendi que não serei nunca muito diferente dessa pessoa que sou hoje. Terei mais cabelos brancos, mais rugas. Posso tentar enfeitar um pouco a minha imagem interna e externa, dar uns arremates, prestar mais atenção para tentar errar menos. Mas a essência não vai mudar. Perfeito, não serei nunca, nem com regimes, nem com cirurgias plásticas, nem com mais algumas décadas de análise.
Talvez, para que o mundo fique melhor, mais aconchegante, mais quentinho, o que está em falta NÃO são seres olímpicos e perfeitos, mas reles mortais, falíveis e humanos, um pouco mais conformados com as fraquezas e limitações humanas. Já há culpas demais, frustrações demais, onipotência demais.
Desta vez, ao invés de sair correndo para não deixar nada pendente para janeiro, proponho que se tome uma atitude realmente nova. Poderíamos hastear a bandeira da trégua, do descanso, antes que o ano acabe. Vamos anunciar a conquista ainda maior: gostar do que a gente conseguiu, sem lamentar o que supostamente deveria ter conquistado. A hora é de valorizar o que a gente realmente é, sem se remoer pelo que poderia ter sido e não foi.
No Ano Novo, vou procurar meus amigos, um por um, para dizer-lhes que fiz o que pude por eles, neste ano que acaba e em todos os outros. Certamente menos do que eu gostaria de ter feito, muito menos do que eles acreditam merecer, mas o máximo que se fez possível dentro dos meus humanos limites. Vou olhar nos olhos da companheira e reiterar o que ela provavelmente já descobriu: não sou o príncipe do reino da fantasia, não há encantamento a ser quebrado para me tornar louro e lindo, meigo e delicado. Minha medida é esta que aqui está, para o bem ou para o mal. Nem mais, nem menos.
Em 2012 não serei nem melhor nem mais bonito do que tenho sido. Mas talvez venha a ser uma pessoa mais tranqüila, mais tolerante comigo mesmo e com os outros. Espero que seja suficiente. Espero, também, poder continuar recebendo sua atenção e carinho, semanalmente, neste pequeno espaço deste grande jornal.
Namastê e Feliz 2012!
Colaborador: Luiz Marcos Gurivitz
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