Atualizado em 30/12/2011 00:00:00
Os seres humanos, as coisas e os ambientes, estão em permanente estado de mudança. Embora sejamos todos, sempre, muito resistentes às mudanças. Por mais que insistam em dizer o contrário, os indivíduos são mesmo, em geral, muito conservadores. Às vezes, eles até admitem certas mudanças, quando lhes convém. Para poder dar aquela impressão de modernidade, de estarem a par da tecnologia mais recente e de serem atualizados, por acompanharem o dia-a-dia do que está sendo publicado em jornais e revistas, ou em documentários que são transmitidos pela televisão. Se não, vão pensar que eles estão parados no tempo, por não seguirem as transformações e poderiam até ser tachados de provincianos.
E sobre política? Nós admitimos que possam haver mudanças? Ah! Todos se apressam a dizer que sim... Mas, é justamente nesta questão que somos mais resistentes. Dizemos que somos democratas, só para agradar quem poderia nos considerar conservadores ou reacionários. Mas, esta resistência a mudanças no campo político, pode causar grandes estragos e muitas dificuldades ao pleno exercício da vida democrática. Pois, a alternância do poder é um princípio fundamental da democracia.
Mas, fala-se muito pouco de alternância, quando se está no poder e, fala-se muito sobre este assunto, quando se está fora dele. E, quem se habituou a estar por dez, quinze, ou vinte e tantos anos no poder, foge da palavra alternância como o diabo da cruz, podendo se servir, de acordo com a circunstancia, de pelo menos um dos três usos gerais do poder:
1. O poder sobre, aquele usado para fazer outra pessoa agir de determinado modo, que é também chamado de dominação;
2. O poder para, que dá aos outros os meios para agir mais livremente por si mesmos, que é também chamado de capacitação;
3. O poder de, que pode nos proteger do poder dos outros, que é também chamado de resistência.
Ao longo do tempo, os interesses, as cumplicidades, algumas amizades e simpatias, vão se sedimentando, criando vínculos... Quando estamos há muito tempo num lugar, acabamos por considerar que ele é nosso. Que podemos utilizar aquele lugar, sem termos que ouvir a opinião dos outros, ou sem perguntarmos nada a ninguém. Aí então, nós utilizamos as mais estúpidas artimanhas para tentarmos contornar a democracia, a legalidade, o legítimo poder. É muito constrangedor observarmos como alguns simplórios pretendem ignorar estas mudanças efetivas, que legitimam o poder, que é outorgado pelo povo e em seu nome deve ser exercido.
Que mal há em se pertencer a uma minoria? Nós deveríamos aceitar com humildade todas as contingencias políticas, para tentarmos, quando for necessário e por via democrática, alterar uma situação presente. Pois, todos nós, num determinado momento, já fizemos, fazemos, ou faremos parte de uma minoria qualquer. Seja ela política, religiosa, estética, filosófica, ou até mesmo esportiva. Às vezes, vale muito mais a pena pertencer à minorias. Pois, quem é que pode afirmar, que as maiorias é que têm sempre razão?
O conhecimento, as doutrinas, a arte, e a ciência, são frutos de um trabalho árduo de persistência, reflexão e de solidão. Os verdadeiros trabalhadores do pensamento são respeitados, por pertencerem a múltiplas minorias. Eles não se sentem marginalizados, porque têm plena consciência do dever cumprido, da sua atitude e coerência perante o mundo e a vida. Podemos eté ler, de uma outra forma, aquela célebre frase do Nelson Rodrigues: Toda unanimidade é burra... Ou, Todo burro busca unanimidade.
José Carlos Alcântara é consultor de empresas
Colaborador: Redação
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