Atualizado em 16/12/2011 00:00:00
No final de agosto último, quando o COPOM optou por surpreender as apostas do mercado e iniciar um ciclo de reduções da taxa básica de juros, e passou a Selic para 12,0%, parecia que o mundo viria abaixo. Choveram críticas dos analistas financeiros midiáticos (aqueles que não saem das páginas dos jornais semanalmente e que prestam serviços para consultorias especializadas ou Bancos). Alguns críticos foram além e realçaram que o Banco Central (BC) estava sendo pressionado politicamente e abandonava uma política de preservar a inflação dentro da meta.
Nos meses seguintes, à medida que se foram confirmando os sinais de desaceleração da economia brasileira as críticas foram rareando, à exceção de alguns intransigentes, que se julgam detentores de um afiadíssimo espadachim ultra-ortodoxo que lhes faz imaginar com superpoderes...
Agora, com a indicação do não-crescimento do PIB no terceiro trimestre/2011 fica claro que a Autoridade Monetária cumpriu seu papel, antecipando-se à formação de consenso pré-direcionado e foi eficaz ao diagnosticar o desempenho econômico nacional, diante de um complexo ambiente internacional.
Este acontecimento deve servir de reflexão. Aquela avalanche de críticas se desvanece no ar como se nada tivesse acontecido. Porém, o episódio revela um fortalecimento do BC; uma manifestação expressa de sua credibilidade e não o contrário como asseverava os críticos. Este sim é o papel de um BC independente: antecipar-se ao que parece ser consenso e indicar os referenciais relevantes para que a estabilidade monetária prevaleça em um contexto evolutivo saudável. O ajuste dos juros é um lume impar neste contexto em que as variáveis macroeconômicas se ajustam dinamicamente com reações causadas por instrumentos de política econômica acionados internamente e pelos acontecimentos externos.
O que dizia a ata do Copom em 31 / Agosto? Que havia indicações do agravamento da crise internacional, ou seja que havia uma ‘deterioração adicional dos mercados internacionais, com a volatilidade e a aversão ao risco se elevando, em grande parte, alimentadas por extraordinários níveis de liquidez e por incertezas crescentes quanto ao ritmo de recuperação da atividade global’; e registrava ainda que ‘ ... aumentaram as preocupações com dívidas de países e de bancos europeus, inclusive de economias centrais, e com a possibilidade de desaceleração da atividade econômica na China’. E foi exatamente isso que observamos desde setembro último. A crise da zona do Euro vem se arrastando sem a manifestação de que haverá uma superação das incertezas nos próximos anos; o ambiente econômico nos EUA continua na mesma, com tímidas recuperações setoriais e na geração de emprego. Enquanto isso, todos os países emergentes passaram a rever suas metas de crescimento neste ano, optando por adotar medidas reanimadoras do mercado, como foi feito recentemente na China, ao flexibilizar a oferta monetária com redução dos depósitos compulsórios. Tal como aqui, em diversas economias estão sendo acionadas medidas macroprudenciais, de forma a evitar que a economia estagne e caia, aí sim, em um ciclo vicioso, deteriorando as contas públicas e exigindo esforços subseqüentes maiores do setor público.
Ainda convivemos com taxas reais de juros elevadíssimas. Atualmente, estão em torno de 5,0% / 5,5%
A economia brasileira está preparada sim para enfrentar esta incômoda realidade internacional. Entretanto, esta posição não permite imobilismo por parte do Governo e nem oferece condições para se “baixar a guarda”. Tudo leva a crer que teremos um ambiente de restrito crescimento econômico por um bom tempo; ainda faltam muitos capítulos desta novela em torno da luta para se preservar a União Monetária Européia.
Ainda convivemos com taxas reais de juros elevadíssimas. Atualmente, estão em torno de 5,0% / 5,5% (Selic atual de 11,0% e uma expectativa de IPCA para os próximos doze meses de 5,5%). Um dos determinantes da restrita taxa de investimento da economia brasileira é a taxa de juros. As diversificações de fontes para investimentos de longo prazo (regulamentação de fundos de investimentos e atrativos tributários para emissão de debêntures) estão, aos poucos, redirecionando poupança de investidores institucionais e dos chamados ‘family offices’ para sustentar as demandas da ‘economia real’. A conquista de uma taxa básica de juros mais baixa, próxima do que se tem nos demais países emergentes e do centro é uma indispensável condição para preservar a vitalidade da economia brasileira. Nesta conquista, o BC tem dado indicações de sua afinidade com a formulação da política econômica (como um todo) conduzida pelo Ministério da Fazenda bem como o seu inquestionável compromisso com a preservação de metas de estabilidade, mas numa economia que cresce e reduz as iniqüidades sociais que tanto nos incomoda.
Colaborador: Redação
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