Atualizado em 03/12/2011 00:00:00
Geralmente as pessoas esperam completar os 100 anos de idade para, então, comemorar o centenário de nascimento. Parece óbvio e o é, na realidade. Mas há aqueles que preferem fazer um planejamento antecipado deixando de lado a incerteza de que, literalmente, acabará, de forma sofisticada, em cinzas para a eternidade. Nos dias de hoje, porém, o que mais se vê são as iniciativas futuras tomarem forma no presente, como se presente fossem. Falava-se, até o ano 2000, das Metas do Milênio como quem ia ao sorveteiro. Pois o século XX acabou, começou uma nova era e a miséria no mundo segue a mesma, ou pior, as desigualdades se suplantam e a intolerância, o ódio racial, os dramas sociais e a mediocridade campeiam soltos por todos os quadrantes do planeta.
Hoje marcam para 2014 ou 2016 as façanhas mais impressionantes como construção de estádios, linhas de metrô, favelas urbanizadas, tráfico controlado, enfim, metas que, de longe, não parecem alcançáveis, mas para os crédulos e coniventes de coração, tudo é possível. E o fazem de forma institucional, com direito a solenidade no lançamento, instalação de câmeras para acompanhar os projetos em tempo real, comitês gestores e todo um aparato de planejamento e engenharia capaz de fazer inveja aos cineastas mais arrojados. Constroem a ilusão que precede a realidade, embora esta seja o mistério que nos surpreende no minuto seguinte, desde o início dos tempos.
Assim, vivemos de sonhos, imaginação. Uma fantasia que, adequada a números e diretrizes, muito investimento e tempo suficiente para trabalhar, torna-se uma Brasília, por exemplo. Trata-se de um projeto no qual os ocupantes do poder ali instalado possam planejar ainda mais e, sem medo de ser felizes – com o sacrifício de toda uma nação – traçam rumos que o futuro, e somente o futuro, poderá provar se estarão certos ou errados. Quando isso acontecer, aí também já não importa mais, pois nenhum dos artífices estará entre nós, a não ser aqueles mais renitentes que insistem em passar incólumes pelo centenário e seguir em frente, como se a morte fosse um mero detalhe a ser considerado no seu embornal de façanhas.
Organizar o próprio centenário, portanto, é uma atitude surpreendentemente aceitável, principalmente quando estabelecemos o marco para o desenvolvimento da humanidade, do país, da nossa cidade, quiçá do bairro onde moramos. Portanto, vamos eleger para 2046, ano final desta centúria, os objetivos a serem atingidos nas mais diversas fontes do conhecimento, desde a Medicina à Física Nuclear, dos esportes à Sociologia, da Química à Literatura. Não sem antes compor a comissão de notáveis pronta a fazê-lo. Note-se que entre os participantes, todos vetustos senhores algum dia, poucos chegarão inteiros até lá para receber a medalha comemorativa da efeméride, o que demanda inscrever, desde agora, três ou quatro crianças para a suplência.
Entre os escolhidos para a comissão certamente estará o médico particular, aquele que conhece em detalhes os cataplasmas aplicados aos músculos sóleos, estirados em tempos de antanho em meio aos folguedos da mocidade. Mesmo este deverá deixar o sucessor bem informado, pois corre o risco de ter rompido o século quando chegar a hora da festa. Ah, e um escriba, e dos bons, precisará se fazer presente, desde agora, para relatar a aventura de passar por uma era de guerras e catástrofes, ainda que repleta de inenarráveis momentos de uma plenitude somente possível àqueles jovens, de qualquer idade, capazes de viver 100 anos felizes.
Colaborador: Sergio Nogueira Lopes
MAIS NOTÍCIAS
Últimas Notícias
Guilherme Barcellos
Afrobuzios
Margareth Ferreira
Afrobúzios
Luiz Marcos Gurivitz
Comportamento
José Gonzaga
Viva as emoções sem drogas
NOTÍCIAS
JORNAL PRIMEIRA HORA
Copyright 1995-2010 Jornal Primeira Hora, Todos os direitos reservados.