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Quarta-feira , 23 de May 2012

Atualizado em 19/11/2011 00:00:00

Saúde pública também se faz por diálogo

Marcelo Paiva Paes de Oliveira é médico

Tenho participado de um programa aos sábados na rádio Litoral, e nele o assunto “saúde” é recorrente, sobretudo por recentes episódios ocorridos em Cabo Frio. O financiamento e a gestão em saúde pública tem sido um tema recorrente no país, mas precisamos tomar cuidado para não repetir velhos clichês que estão prejudicando demais esta questão.
Por exemplo: a questão do financiamento implica em arranjar novos recursos para a saúde, assim, há pessoas que exploram o descontentamento da opinião pública com relação à grande carga tributária que ela já é obrigada a pagar, e simplesmente largam toda a culpa dos problemas da saúde na gestão, dizem que há dinheiro suficiente para se implantar o atendimento universal, mas que os gestores não usam bem os recursos que possuem. Enquanto isso, uma outra parte, ligada à sede de arrecadação do estado brasileiro, insiste que precisamos de novos recursos, mas debatem Leis que impactariam de maneira contundente a maioria da população e que, de tão impopulares, encontram dificuldades para progredir no Congresso Nacional, mesmo com o chamado rolo compressor da base aliada do governo em funcionamento.
Pois bem, esta questão dialética está servindo apenas como cortina de fumaça, e os problemas e as suas soluções permanecem num campo enfumaçado onde não conseguimos enxergar o caminho.
Se é verdade que o custo da saúde é alto, também é verdade que o seu financiamento não pode passar por estratégias que sobrecarreguem ainda mais a imensa maioria da população brasileira. E se é verdade que os recursos são mal geridos, também é verdade que se torna uma ficção discutir-se gestão pública em um país onde nem mesmo as regras que definem o processo eleitoral estão definidas.
Neste primeiro artigo abordaremos a questão da gestão. Na maior parte das vezes, a falta de comunicação entre os serviços da saúde é um dos grandes responsáveis pelo fracasso.  Afinal, por saúde pública temos que entender o sistema de vigilância se comunicando com o sistema de atenção básica, que se comunica com os ambulatórios e com a emergência, que se comunicam com as centrais de regulação e com o núcleo interno de regulação. Mas quando falamos em comunicação não estamos falando apenas do ponto de vista físico, estamos falando do ponto de vista conceitual, estamos falando, fundamentalmente, de estratégias comuns, pensadas em conjunto. Afinal, é a ocorrência de falha em um destes sistemas que produzirá o doente, e quando chegamos a ter o doente o custo da saúde aumenta exponencialmente.
Nesta hora, a hora em que o doente passa a existir no sistema, começamos a depender também de fatores externos à capacidade municipal de gestão, pois dependemos de leitos extras que o estado deveria prover, mas, quase sempre, não provê. Na verdade precisamos mudar a ótica dos serviços de saúde. No Brasil temos o hábito de olhar as secretarias de saúde como se fossem secretarias do doente. Então, falamos de atenção básica, mas de uma atenção básica que trate o doente. Nós pensamos sempre em atender o doente, e quase nunca em oferecer a saúde.  Precisamos oferecer saúde, isto é mais barato, mais saudável, e possui uma capilaridade social muito maior.
Mas o maior entrave para oferecer saúde é que a maioria dos gestores julga conhecer, mas de fato não conhece, os conceitos de atenção básica e do PSF. Afinal, o PSF é um programa, e neste sentido todas as suas especificidades têm que estar atendidas. Algumas das especificidades mais elementares do PSF é o desenho da comunidade, a posição do posto de saúde em relação aos usuários, a capacidade de deslocamento dos agentes comunitários, a interação entre agentes, população e técnicos de enfermagem e enfermeiros, a formação de uma consciência holística, e o estímulo à multidisciplinaridade em detrimento do modelo biomédico (O Ponto de Mutação, F. Kappra). Sem este desenho, sem estes conceitos, o programa fracassará. E ele está fracassando no Brasil. Fala-se muito em PSF, mas não sabemos implantar o programa, e muito porque pensamos o PSF quase sempre apenas pelo médico do posto, e não pela interdisciplinaridade.
Além disso, a comunicação com a sociedade é um elemento fundamental, pois saúde produz sempre muitas dúvidas, e a comunicação deve ser constante. Estamos assistindo a um problema em Cabo Frio que é fruto apenas da falta de comunicação dos órgãos responsáveis da saúde com a sociedade, pois o caso do falecimento de um menino por meningite está produzindo uma série de desinformações, e levando a população a praticamente exigir um tipo de atitude do governo local que não representa o que deve ser feito.
Saúde pública também se faz muito por diálogo direto com a sociedade, pois gargalos existem no sistema, e mostrá-los ao povo faz parte da estratégia do sistema. Mas credibilidade é tudo nesta hora, o gestor tem que inspirar confiança na população, além de um conhecimento do assunto aliado ao raciocínio rápido, pois às vezes as perguntas são inusitadas, porém precisam ser respondidas imediatamente.
Enfim, há muito em gestão, pois tema de saúde é extenso, infelizmente o espaço é curto. No próximo artigo falaremos um pouco sobre financiamento.
 

Colaborador: Redação

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