Atualizado em 12/11/2011 00:00:00
Os políticos que estão no poder, em geral, não acolhem com boa vontade os projetos que são apresentados por pessoas de outra categoria. Nós já nos habituamos com os políticos delirantes e os estadistas sem critério algum. Mas, seria possível convivermos com um político totalmente louco?
O Turcomenistão, em 1992, pouco depois de deixar o bloco soviético; quando emergiram várias nações e repúblicas autônomas; se meteu num problema ainda mais grave do que a crise que enfrentou, antes de separar-se da URSS. A população, que elegeu para presidente Saparmurat Niyazov, não se deu conta de que ele carecia do que, no senso comum, nós chamamos de sanidade. Como é que ele chegou a ser eleito presidente? Bem, dizem que ele era o único candidato que havia...
Niyazov, que cresceu num orfanato soviético, estava obcecado pela ideia de dar uma nova identidade ao seu povo, o que, segundo ele, era algo inexistente, após tantos anos daquele domínio dos soviéticos. Assumiu, logo de cara, uma postura messiânica, ao adotar o título de Turkmenbashi, O Pai dos Turcomanos. E gostou tanto desta sua nova denominação, que mudou o nome de praticamente todas as cidades do país.
Procurando assegurar-se de que estaria presente em todos os momentos, renomearia também o primeiro mês do ano, com esta mesma denominação e os demais meses até com nomes de seus familiares. E, estando consciente de que todo líder deve ter um livro sobre si mesmo, ele escreveu seu próprio livro de regras morais e conselhos ao povo, com o título de Ruhnama... Este livro foi escrito ainda, em um alfabeto que ele próprio ajudou a desenvolver. Ele gostou tanto da sua criação, que todas as bibliotecas públicas só deveriam oferecer este livro, o qual era, por sua vez, o mais requisitado, já que todos os funcionários públicos tinham que saber o conteúdo do livro de cor.
Como seu nome devia aparecer em todas as partes, a mobilidade urbana se tornou muito problemática, pois a maioria das ruas tinham o mesmo nome... A sua imagem também passou a ser importante, pois as cédulas da moeda local e muitos cartazes estampavam o seu rosto. Todos os canais de televisão deviam inserir a sua face nos logotipos e também nos mostradores que indicavam a hora, assim como em muitos produtos alimentícios, bebidas e até em rótulos de materiais de higiene e limpeza.
Não contente com isto, ele se convenceu de que tinha a fórmula certa para uma boa política de saúde pública. Proibiu os dentes com implantes de ouro e o uso de creme dental, já que mascar ossos e comer maçãs era uma ideia muito melhor para a proteção bucal. Fechou os hospitais fora da capital, pois considerava que os doentes deviam
aproximar-se mais dele e substituiu o Juramento de Hipócrates, dos médicos, pelo “Juramento a Turkmenbashi”.
Entre outros feitos ‘notáveis’, ordenou que edificassem nas praças, muitas estátuas suas de ouro e até a construção absurda de um palácio de gelo no meio do deserto. No ano de 2004, ao ver que estavam distribuindo um panfleto que não lhe agradou, executou seu ministro do interior, ao vivo, em rede nacional de televisão. Quando a loucura atingiu o seu auge, a União Europeia declarou o Turcomenistão uma Nação mais Favorecida, abrindo-lhe seus laços comerciais. Mas, neste mesmo ano de 2006, Niyazov deixou seu povo em paz, ao morrer subitamente de ataque cardíaco, aos 66 anos de idade, causando uma grande comoção e manifestações de pesar entre milhares de pessoas que choraram a morte do seu líder louco.
Tudo indica que, por aqui, nós estamos imunes a este famigerado culto à personalidade, assim como estamos também, muito longe do Turcomenistão... E ainda bem, pois isto é mesmo muito mais terrível, do que viver num país onde o governo só é exercido, graças à compra indiscriminada de apoio político e ao empreguismo estatal generalizado.
José Carlos Alcântara é consultor empresarial
Colaborador: Redação
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