Região dos Lagos e Norte Fluminense

Jornal primeira hora Jornal primeira hora
Quarta-feira , 23 de May 2012

Atualizado em 05/11/2011 00:00:00

O Trabalho de Pensar

?Creio que na sociedade atual nos falta filosofia... Nos falta refletir, pensar, necessitamos do trabalho de pensar e, me parece que, sem ideias, não vamos a lugar algum? -  José Saramago 1922-2010

986450

José Carlos Alcântara – é consultor empresarial

 

O que aconteceria, por exemplo, se as pessoas votassem maciçamente em branco nas eleições? Se fossem encontrados dois homens totalmente idênticos? Se as pessoas deixassem de morrer? Estas são algumas das indagações que nos foram deixadas pelo ganhador do Premio Nobel de Literatura de 1998, José Saramago, através de uma literatura comprometida socialmente, na qual prevalecem mais as ideias do que as emoções, ou a inspiração.
De origem humilde, as dificuldades econômicas fizeram de José Saramago um serralheiro mecânico que, aos 25 anos dedicou-se à literatura, como uma forma de catarse e entendimento da realidade. Seus livros nos propunham, quase sempre, reflexões sobre o ser humano, a religião e a fé, os interesses e as convicções, a tradição e a modernidade. Em uma entrevista sobre seu livro, As Pequenas Memórias, onde evoca a infância, nos deparamos com este comovente trecho de um diálogo seu com o Jornal das Letras; quando foi questionado sobre já ter regressado antes à sua infância e aos avós, através de suas crônicas; embora sem a grande visibilidade e o impacto que sua declaração feita em Estocolmo causou, ao receber o Premio Nobel de Literatura: ”Primeiro, porque me disseram que tinha de pronunciar um discurso de 40 minutos, e eu perguntei-me, nervoso, agora o que é que vou fazer? Ocorreu-me então essa ideia. Antes ainda do Nobel, ao ter de proferir a intervenção de abertura de um Congresso, com milhares de professores, em São Paulo, falei de improviso sobre uma questão que então me preocupava e continua a preocupar: A perniciosa confusão entre dois conceitos que pouco têm a ver um com o outro, o de educação e o de instrução. Lembro-me de ter feito esta pergunta à assistência: uma família de analfabetos pode educar? E deste a resposta...Claro que pode. Educar é inculcar valores, instruir é transmitir conhecimentos. Não estou a defender o analfabetismo, obviamente, mas os meus avós, que eram o que eram, com a sua forma de ser e de viver, e provavelmente sem terem essa intenção nem sequer consciência disso, deram-me lições que ainda me servem. Quando hoje, com 84 anos, digo que continuo a ser o neto dos meus avós, o neto do meu avô Jerônimo e da minha avó Josefa, pode até parecer um retrocesso infantilista, mas é disso que falo, das raízes mais autenticas que me ligam ao passado. Ao dizer na Academia Sueca que o homem mais sábio que conheci não sabia ler nem escrever, mesmo que isso não fosse inteiramente verdade, e não era, conheci outros homens igualmente sábios... que sabiam ler e escrever.
... E muito mais. Com isso de ir à Academia Sueca dizer que o homem mais sábio que conheci não sabia ler nem escrever, o que quis significar foi: Está aqui um tipo a quem deram o Premio Nobel, é preciso que saibam donde esse tipo veio e não vou dourar a pílula nem fazer de conta que sou descendente de uma duquesa...
Ainda agora, quando penso nos meus avós, aqueles dois velhos, cada um de seu lado da cama e dois ou três bacorinhos dos mais delicados, dos mais frágeis, a dormir no meio deles, dá-me vontade de chorar. Quem viveu coisas como estas não pode esquecer. Eu sou aquilo, de certa maneira continuo a ser aquilo. E não me perguntes o que é ‘aquilo’,   porque foi isto que tentei explicar neste livro”.
A família de José Saramago era pobre e quase todos eram analfabetos. Mas, ele hoje está lá, ao lado de Hermann Hesse, André Gide, Ernest Hemingway, Albert Camus, Miguel Ángel Asturias, Samuel Becket, Jean-Paul Sartre, Pablo Neruda e Octavio Paz...  Sem sair da sua querida Tías em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, este grande escritor da língua portuguesa e incansável trabalhador do ofício de pensar, nos deixou, “mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia”.
 

Colaborador: Redação

Copyright 1995-2010 Jornal Primeira Hora, Todos os direitos reservados.