Atualizado em 22/10/2011 00:00:01
A crise no Ministério dos Esportes, muito mais do que prejudicar a já combalida e quase moribunda imagem da política e do político no Brasil, expõe na realidade o quão sedutor é o dinheiro em uma sociedade onde os arranjos culturais e os sinais de poder se dão em torno dele.
O PCdoB é um caso emblemático porque até poucos anos atrás não pairava dúvida sobre a honradez e o posicionamento da chamada esquerda brasileira. Lideres como João Amazonas, ou Luiz Carlos Prestes, gozavam, e levarão este legado para história, de uma inquestionável estrutura ideológica, uma estrutura que os fez, colocando em risco a própria vida, enfrentar os mais difíceis momentos da vida política nacional, enfrentaram cadeias, torturas, exílios, perderam parentes, amigos, mulheres, tudo em nome da utopia e da ideologia. E qual ideologia? O socialismo. E qual utopia? A de um mundo mais justo socialmente, sem pobreza, sem bebes abandonados em latas de lixo, sem idosos desamparados, e sem acumulação individual do capital.
Um dos maiores escritores e pensadores da atualidade, Eduardo Galeano, tem uma tese linda sobre a utopia, diz ele:
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.
Mas, voltando ao esporte, discutir hoje se o ministro tem ou não culpa no cartório é absolutamente inócuo. Ele já está julgado e sentenciado. E isto porque o arranjo político-cultural brasileiro, aprofundado e institucionalizado em muito pelo governo do PT, é mesmo o de fazer caixa para o partido através do uso da máquina pública. Claro que neste caixa se sobrar dinheiro para os companheiros, tanto melhor. E sempre sobra, diga-se de passagem.
Mas digo que o Ministro já está sentenciado e julgado porque temos outros exemplos de situações em que, independentemente da existência material de provas, a sociedade tem como certa a sua existência. E muitos destes exemplos são tão fortes que fazem parte da religião, por exemplo, Jesus.
Não temos, fora os relatos bíblicos, nenhuma prova documental da existência de Jesus. Por exemplo, não há uma certidão de nascimento, não há a sentença escrita nos livros romanos sobre o seu julgamento, embora haja a sentença de Barrabás, não há um texto escrito por ele que tenha resistido ao tempo, embora haja textos muito mais antigos, por exemplo os escritos de Platão, ou seja, prova material da existência de Jesus, não há. Até mesmo o Santo Sudário é do século VII. Mas de que isso interessa se filosoficamente falando Jesus existe de forma incontestável para o mundo judaico-ocidental-cristão do qual fazemos parte? Outro exemplo é o filósofo Sócrates, não nos chegou até hoje nenhum texto escrito por ele, tudo o que sabemos sobre sua existência são livros, chamados de Diálogos, que falam da sua vida, e que foram escritos por Platão e Xenofonte, além de algumas citações transversais feitas a ele nas obras de Aristóteles. E voltando a Jesus, para finalizar, tampouco interessa para nós se a mais populosa das religiões sobre a terra prefere adorar Buda e simplesmente ignora a existência ou não de Jesus. No nosso mundo, no nosso universo, Jesus não só existiu, como existe. Ponto final. E ponto final também para o mau uso da verba pública do Ministro Orlando Silva.
“A esquerda,
para ganhar as eleições,
fez acordos com a direita.
Chegou ao poder,
é verdade,
mas perdeu a alma.”
Se ele, o Ministro, vai continuar no cargo ou não, depende da mesmice política, ou seja, depende se os interesses do capital sobre um Ministério que está em evidência em função dos eventos que organizará nos próximos anos, aceitarão conviver com ele. Afinal, enfraquecido pelas denúncias, ele já não poderá mais desviar os recursos para as ONGs do PCdoB, abrindo assim a possibilidade de que os que detém o interesse no capital possam repartir para si o bolo da copa do mundo e da olimpíada.
Se estes senhores entenderem que ele não representa riscos ao projeto de acumulação do capital que eles têm, o Ministro pode permanecer para evitar que mais um partido fique fazendo beicinho para a presidente Dilma. Seria como uma certa inversão de um famoso ditado popular. Em vez de dizermos, foram-se os anéis mas ficaram os dedos, diríamos, foram-se os dedos mais ficaram os anéis. Explico: ficando no cargo de ministro mesmo sem poder nenhum, pelo menos o PCdoB não amarga um desgaste maior da legenda, os dedos, ou seja, o poder de operar a máquina está perdido, mas o anel, ou seja o adereço do título de ministro do PCdoB, continua no mesmo lugar.
Eu, particularmente, acho que ele sai, mas sinceramente, isto pouco importa agora. Para todos o Ministro meteu a mão na cumbuca. A possibilidade que ele tem de ficar reside na naturalização da corrupção do estado que o PT incutiu na cabeça de todos. Pois se outrora eles eram a voz da ética, quando chegaram ao Palácio do Planalto fizeram valer a máxima “mas todo mundo sempre fez, porquê eu não posso fazer também”, ou uma outra ainda pior, “mas se não for desta forma ninguém governa”. Como se governar fosse tão somente se manter no cargo através das concessões e dos favores.
A tristeza disto tudo, como dizia no início deste artigo, vem ao encontro de uma afirmação feita por José Saramago, disse ele: “a esquerda, para ganhar as eleições, fez acordos com a direita. Chegou ao poder, é verdade, mas perdeu a alma.”
Colaborador: Redação
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