Atualizado em 09/10/2011 00:00:00
Há muitos anos assisti uma tourada no México e prometi a mim mesmo nunca mais colocar os pés numa “Plaza de Toros”. O mais impressionante e bárbaro era o picador, um mexicano parrudo, montando um cavalo resistente de olhos vendados e corpo protegido por mantas. A “vara”, uma lança com ponta de aço é enterrada pelo picador no cangaço do touro. Escorre sangue do buraco aberto no pescoço do animal. O picador faz mais força para a ponta da “vara” penetrar mais fundo. O touro, como o cangote ferido, não consegue mais levantar a cabeça.
As banderillas e toda a encenação circense têm encanto. A música também. O clima é excitante, mas no final épura matança. O toureador por vezes executa um verdadeiro balé na areia da arena. Por trás do efeito do espetáculo fica o bárbaro, trágico. A solução é torcer pelo touro.
Os espanhóis exportaram a “corrida” para nosso continente, não pegou no Uruguai nem na Argentina, mas tem importância no México, Venezuela, Peru, Equador e Colômbia. Na Venezuela pelo menos é proibido para menores de 14 anos. Em Paris já houve touradas há dois séculos, mas hoje são concentradas na região basca, em Bayonne, Nîmes e Arles. LI certa vez que cerca de oitenta touradas são realizadas na França anualmente.
No Rio de janeiro, há talvez um século ou mais, houve touradas, excepcionalmente, no estilo de Portugal, em que o touro é ferido pela espada do toureiro, mas é poupado, sai vivo. Em Santa Catarina, embora proibido por lei, temos a tradição da “farra do boi”, herança recebida dos imigrantes portugueses dos Açores. Fazem maldades com o animal, mas sem a barbaridade da tourada espanhola, ou da briga de galos.
As touradas espanholas, além da paixão do povo, constitui uma atração importante para os carnívoros americanos e mesmo para os turistas de todo o mundo. Milhões de pesetas circulam em volta dessa atividade, começando com a criação dos tradicionais touros Miura. Centenas de tratados de tauromaquia já foram escritos, jornais publicam crônicas e críticas com termos especializados, de difícil entendimento, por vezes, para os não “aficionados”.
A “corrida” pertence à cultura espanhola. As touradas foram tema de quadros de muitos pintores espanhóis, desde Francisco de Goya a Picasso que desenhou cenas da arena e, trabalhando no atelier de cerâmica do espanhol Artigas no sul da França, criou uma série de pratos de cerâmica com as fases da “corrida”. Mas, mesmo como um apaixonado, não deixava de reagir com espanto à tragédia. Uma foto, num livro, mostra Pablo Picasso, Jacqueline e o escritor e poeta francês Jean Cocteau assistindo uma tourada. Alguma coisa de impressionante ocorrera naquele momento na arena. Jacqueline leva as mãos à boca, a expressão de Picasso é de espanto e atenção, enquanto a de Cocteau demonstra horror e surpresa .
É realmente quase inacreditável que as “corridas” possam vir a desaparecer na Espanha. Não sei se há movimentos para abolição de touradas nos outros países. Depois de seiscentos anos de tradição, o parlamento regional da Catalunha aprovou uma petição dos movimentos anti-touradas para proibi-las no fim do ano de 2011, embora sejam permitidas outras espécies de jogos com touros. O pintor espanhol Barcelo se tornou nos últimos anos o grande especialista de quadros de touradas. Seus quadros valem fortunas. Lançou um pôster com o fim das corridas em Barcelona que virou um sucesso e teve uma impressão de muitos milhares, sendo disputado por todos os aficionados espanhóis. O dia 25 de setembro de 2011 ficará marcado na história de Barcelona como a da última tourada e fechamento de um de seus orgulhos : a “Plaza de Toros Monumental”.
Colaborador: Alfredo Rainho
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