Atualizado em 17/09/2011 00:00:00
No Japão antigo, um samurai, derrotado na batalha, cometia o harakiri, abrindo a própria barriga, da esquerda para a direita e de um lado ao outro, com uma adaga especial. O código de honra Bushido do tempo dos shoguns prescrevia um complexo ritual para o ato: roupagem especial, assistência de auxiliares, terminando pela decapitação por uma espada executada por um assistente.
A desonra hoje em dia não é levada tão a sério. O harakiri proibido por lei desde o século XIX é ainda praticado eventualmente como, em 1970, pelo famoso escritor Yukio Mishima.
O Presidente Getúlio Vargas se sentiu traído por assessores em que confiava plenamente. Retirar a própria vida por uma questão de honra hoje em dia se tornou coisa rara. O suicídio de Getúlio Vargas é caso único, apesar de ter sido uma figura discutível seu papel no desenvolvimento do país foi marcante. Respeitassem os brasileiros as questões de honra na vida política não seriam poucos os que deveriam ter cometido harakiri. É mais fácil responsabilizar os outros pelas coisas erradas, ou até o sol e a chuva. Confessar as falhas é coisa rara e praticar o harakiri fora de cogitação, os políticos se apegam aos cargos e se consideram acima de todos os outros mortais.
Colin Powell, general de quatro estrelas, “afro-americano”, foi Chefe do Estado Maior das Forças armadas americanas e, de 2002 a 2005, Secretário de Estado do governo do Presidente do George Bush, chefe da política externa americana.
No auge da crise com o Iraque, na tribuna da ONU, pronunciou um discurso histórico em que exibiu fotografias de caminhões com reboques iraquianos afirmando serem laboratórios móveis para a produção de “armas biológicas”, acusou o ditador iraquiano Saddam Hussein de dispor de um arsenal de armas de destruição em massa e que bastariam 45 minutos para o acionamento desse potencial bélico. A performance de Colin Powell no Conselho de Segurança da ONU, no dia 27 de maio de 2003, apavorou mundo e resultou de imediato no ataque anglo-americano ao Iraque. Mais de cem mil civis, crianças, mulheres, iraquianos foram mortos e continuam morrendo, para uns poucos seis mil soldados americanos. Saddam Hussein morreu na forca e perdida muito da tradição histórica da antiga Babilônia.
Nada foi encontrada as armas de destruição em massa. Até o caminhão fotografado pelo serviço secreto americano e mostrado no discurso do Conselho de Segurança por Colin Powell ficou provado ser um inofensivo veículo que não continha nenhum laboratório de “armas biológicas”.
Somente agora, passados anos, o general reformado Colin Powell, num extraordinário gesto faz sua mea culpa, e admite: “Ficou provado, como descobrimos mais tarde, que um monte de fontes que tinham sido confirmadas pela comunidade de inteligência eram erradas.” Os serviços de inteligência americana não se limitam a uma só organização, a CIA, a mais cara do mundo, contam com serviços de informação das forças armadas (exército, marinha, aviação) e colaboração dos serviços de informação de países amigos. Incompetência de avaliação das informações? Não, o ataque ao Iraque estava já armado, o objetivo era o petróleo de Saddam Hussein.
Ato raro para um general que foi uma importante figura do governo George Bush ao confessar ter falhado. Já o presidente não se desculpou e o então primeiro ministro britânico de então, George Blair, continua sustentando, como fez em suas memórias publicadas recentemente, a legitimidade de suas ações. Blair é investigado por uma comissão em seu país de ter agido sem autorização do Parlamento no apoio incondicional a George Bush na invasão do Iraque.
Talvez se Colin Powell fosse um samurai do antigo Japão defenderia sua honra cometendo o harakiri. Um George Bush, nem pensar. Colin Powell permanecerá na história americana como o Secretário de Estado que se demitiu por discordar da orientação do governo. Foi coerente em suas ações.
Colaborador: Alfredo Rainho
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