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Quarta-feira , 23 de May 2012

Atualizado em 09/07/2011 00:00:00

Itamar: um brasileiro a ser homenageado ainda durante gerações

A homenagem prestada ao ex-presidente Itamar Franco, por seu falecimento, confirma a certeza de que a História grava para a posteridade a face verdadeira dos homens públicos. Coube ao vice- presidente a cadeira de comandante- em-chefe do país, após a renúncia do presidente Fernando Collor, em um daqueles golpes que o destino reserva para quem está presente no lugar certo e na hora certa. Itamar era mestre na arte da política e confirma o tino apurado dos mineiros, nos séculos que se seguiram desde o descobrimento. São certos momentos na vida da nação nos quais os habitantes das Gerais se fazem presentes e se tornam marcas indeléveis do tempo em que vivemos. Itamar simboliza, assim, as lições descortinadas nas serras e morros que traduzem o Brasil autêntico, em sua gente mais cautelosa e ainda assim ousada, conservadora e simultaneamente revolucionária. Mineiro conversa sem elevar o tom, mas fala com a firmeza do ouro, dos diamantes e do aço que brotam de suas veias. Ainda que registrado na Bahia, Itamar é nascido em Juiz de Fora, Zona da Mata, e ratificou ser mineiro mesmo após ter deixado por aqui suas cinzas, ao lembrar que dinheiro público precisa ser respeitado com a reverência de um velório. Deixou claro à família que dispensava as idas e vindas de seus restos a Brasília. O máximo a ser gasto do fruto do suor do rosto de trabalhadores para se desfazer do carbono desencarnado, seria um vôo até Belo Horizonte, com uma parada na sua cidade natal, para as despedidas dos amigos. Esses sim, ele reverenciou com o respeito ao erário e à moralidade pública. Com seu gesto, relembrou aos brasileiros do Rio, São Paulo, Bahia e mais esse mundão de meu Deus, a lição de moral que assinou ao decretar o Plano Real e acabar com a farra da inflação alucinada na qual o país se dissolvia. Ficou chateado, e quem não ficaria, ao ser retratado pela imprensa conservadora, paulistana e carioca, como o capiau de topete alto e gosto duvidoso para certas companhias, ao invés de ser homenageado por sua determinação em construir um país honrado, sério e probo. A serenidade mineira, no entanto, impediu-lhe de protestar contra os detratores, ao mesmo tempo que fortalecia os laços com os conterrâneos que o elegeram para o derradeiro mandato, na Casa Alta do Congresso. Itamar ingressa na posteridade com uma biografia que deverá inspirar futuros historiadores a desvendar um exemplo de homem público, capaz de manter uma sintonia finíssima com a sua gente e pontuar, nas tramas das fiandeiras divinas, a presença nos instantes mais graves da vida nacional. Trata-se do fazer política de uma forma que os mineiros, e somente os mineiros, estão acostumados. É impossível decifrá-la na primeira leitura. Da mesma forma, serão necessárias décadas ainda até o pleno reconhecimento do filho que retorna ao pó, com a missão de inspirar os futuros brasileiros a amar o Brasil acima da própria vida. Como Juscelino e José Alencar, para ficar apenas na República moderna, Itamar agora descansa no panteão das Minas Gerais que mostraram ao Brasil, com a simplicidade dos gestos e o carinho pela democracia, que a pátria se constrói com a coragem de quem ousa ser correto ao extremo, sem perder a ternura, jamais.

Sergio Nogueira Lopes é Embaixador da
Sociedade Pestalozzi do Brasil, Sociólogo
 e Escritor. Autor do livro “Opinião Giratória” entre outros.
E-mail: embaixadorsnl@ig.com.br
 

Colaborador: Sergio Nogueira Lopes

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