Atualizado em 03/07/2011 00:00:00
Mesmo depois de terem sido os gregos colocados em providenciais camisas de força as principais economias daquelas tais “nações desenvolvidas” estão diante um drama de dimensões pouco exploradas. É certo que assistimos a um esforço considerável dos vizinhos europeus, como a Alemanha e a França, esta última com a mão na chave do cofre do Fundo Monetário Internacional (FMI), após a vitória de Christine Lagarde. As tentativas vãs de construção da Europa unificada, rica, branca e poderosa, vão aos poucos deixando à mostra a realidade diferente daquela desenhada nos velhos tempos em que no império britânico o sol jamais declinava.
Ora, mas o que tem a ver os tropeços gregos, as topadas da crise portuguesa e os protestos em Madri e Dublin com as plagas emergentes dos latino-americanos, às voltas com o socialismo estridente na Venezuela de Chávez, os preços ótimos para férias em Buenos Aires e uma inflação renitente, que teima em aborrecer os brasileiros? E tudo isso, junto e misturado, com a violência no Rio, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas da cidade e o rápido declínio dos valores mais caros à sociedade moderna, como a solidariedade e o altruísmo? O que tudo isso quer dizer? Lembremo-nos da resposta do profeta Bob Dylan, nos idos da revolução Hippie:”a resposta, meu amigo, está soprando no vento”.
Qual o I-Ching, o Tarot ou a Cabala, tanto faz, caberiam tantas respostas às perguntas que se faz hoje em dia para a imensa transformação pela qual o mundo está atravessando quantos os grãos de areia na praia de Santo Agostinho. Embora pequeninos, dizia o bispo africano ainda no raiar da doutrina católica: “coloque-os juntos e eles afundarão um navio”. O religioso percebeu, muito antes do lançamento do telefone celular e da internet, que “certamente, estamos na mesma categoria das bestas; toda ação da vida animal diz respeito a buscar o prazer e evitar a dor”. Portanto, conhecer as respostas aos dramas econômicos dos europeus e norte-americanos, ou as bem-aventuranças do híbrido entre o neoliberalismo e a estatização que os latinos têm construído, na realidade, pouco interessa.
Por ordem de relevância, ao invés de acreditar nas regras do mercado financeiro, ainda que elas falem tão alto quanto as trombetas de Jericó, demanda-se o conhecimento e a Educação como prioridades absolutas de um país, como o nosso, onde apenas 3% dos habitantes sabem escrever, ler e interpretar corretamente o texto estudado. Explica-se, neste fato, como é “fácil iludir o povo com slogans de liberdade e igualdade”, já ensinava um velho pensador russo, diante do ciclo vicioso em que se encontram os poderosos e os subalternos que tentam acessar o poder. Ora, quanto mais tempo se mantiver a maioria da população na mais franca ignorância, mais fácil será a manobra para a permanência, no alto da pirâmide, daqueles mesmos que hoje ocupam os postos de comando político e econômico, seja aqui, em Washington ou em Botucatu.
Assim, é urgente promover a educação o quanto antes – embora seja uma tarefa tão árdua e imprescindível – para a verdadeira libertação do ser humano desse grilhão imposto pela cegueira do desconhecimento. A construção de estádios para a Copa do Mundo, porém, parece mais importante, atualmente, do que pagar salários dignos aos professores. Em uma gestão realmente comprometida com o desenvolvimento social, a noção de valor seria transversa ao frenesi do Panis ET circenses que toma de assalto o erário e promove a farra de bilhões de reais gastos nas acomodações dos novos coliseus. Com raríssimas e valorosas exceções, a mídia tem se limitado a aplaudir a voracidade dos construtores e a criticar as vozes que ousam afirmar que o rei está nu. Assim como na história de Hans Christian Andersen, porém, diante da verdade absoluta cairá o véu do egocentrismo e nascerá um novo tempo. Será?
Sabe-se lá, mas a coerência dos fatos mostra que o berço da civilização ocidental, no Mar Egeu, de joelhos após anos a fio de um consumismo patrocinado pela bolha que explodiu em Wall Street, é a primeira carta de um castelo em queda, construído sobre a ilusão de um mundo de fantasias, repleto de carros incríveis, mulheres bonitas com anéis de diamantes, em palacetes dourados e bunga-bunga para dar e vender. Nesse ritmo, certamente, o fim do paradoxo será mesmo o nascimento de uma nova era, na qual a fome e a miséria aplicarão lições em série à posteridade.
Em um possível mundo novo, caso estejamos vivos para conhecê-lo, talvez seja possível restabelecer os laços entre a civilização, a justiça e a dignidade. Estes jamais deveriam ter-se rompido pela avareza e o egoísmo. Como disse, certa vez, o bom Santo Agostinho, “a pessoa que tem caridade no coração tem sempre qualquer coisa para dar”. Que seja, no mínimo, o apoio às causas humanitárias.
Sérgio Nogueira Lopes é embaixador
da Sociedade Pestalozzi do Brasil
Colaborador: Sergio Nogueira Lopes
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