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Quarta-feira , 23 de May 2012

Atualizado em 07/05/2011 08:00:00

A promotora louca é espelho de uma sociedade ainda mais alucinada

Sergio Nogueira Lopes é sociólogo e colunista, autor de ?OPINIÃO GIRATÓRIA? entre outros livros

A promotora Deborah Guerner, execrada publicamente e condenada pela mídia, pela opinião pública, antes mesmo de ter sido julgada e condenada, com sentença transitada em julgado, é um exemplo vivo a ser avaliado em seus detalhes, dos mais sórdidos aqueles extremamente pueris, para que o retrato da realidade brasileira seja mais o mais nítido possível. Ela aparece em um vídeo no qual simula atos de loucura, sob o estrito comando de um médico, ainda mais corrupto do que ela seria, o qual lhe dá instruções precisas de como proceder, em público, para que parecesse uma doida de pedra. Quase conseguiu.
Caso atingisse o intento, passaria incólume pelos grilhões da Justiça rumo a uma vida de prazer ao lado do marido, em um balneário qualquer, longe das consequências maléficas que restaram às crianças sem merenda, aos doentes nos hospitais sem médicos e equipamentos, livre dos piolhos que certamente a infestarão nas cadeias pelas quais passará. Terá tempo de sobra para se arrepender da hora em que aceitou os dinheiros oferecidos por aqueles corruptos que pululavam em torno do Mensalão do DEM, como ficou conhecido mais este episódio putrefato do cotidiano político nacional.
Diante do espetáculo midiático oferecido à audiência do país, ao se perceber a dimensão dos fatos, foi possível identificar um dado ainda mais aterrador neste contexto ainda em ebulição. Ao perceber o odor dos fatos em que estava imersa até o pescoço, a promotora Guerner parece mesmo que não tinha alternativa senão enlouquecer. A solução encontrada, porém, foi um grau acima do necessário para que demonstrasse a tontice que lhe aconteceu diante dos algozes, outrora colegas de ofício. Ao simular a própria loucura estava demonstrando o traço do desequilíbrio. A insanidade, subproduto do desespero em que se encontra diante do malfeito, aflora na esquizofrenia. Essa doença permite que o paciente saiba distinguir o sim do não, bem do mal, ainda assim, será capaz de cometer as maiores maldades ou ilegalidades sem nenhum sentimento de culpa e antes, sem qualquer noção do perigo no momento em que possivelmente cometeu os crimes que lhe são imputados.
Mas a grande lição está no fato de que a esquizofrenia é construída pela própria sociedade, no seio das famílias, na ação da mídia. São as instituições sociais que estruturam cada parede desta prisão sombria que é a doença. Este mal, no entanto, torna-se necessário para o funcionamento da mesma sociedade que o elabora, no momento em que impõe os desejos de mais luxo, riqueza sem fim, consumo desenfreado, futilidade em dobro e nenhuma humildade, um arranhão sequer de solidariedade, apenas o ego imenso, a soberba desenfreada, mas nada além do que basicamente se conhece como o padrão normal de vida. Caso o sistema assim não exigisse os descaminhos não seriam estes dos esquizofrênicos.
A pressão imensa que atingiu a promotora Deborah Guerner está no cerne da ocupação que ela exercia.

Aos promotores são dados poderes
de prender e de soltar, de invadir
as casas das pessoas com mandados
judiciais, alguns fabricados em
processos forjados, de desrespeitar
a privacidade dos indivíduos, de
pedir gravações de conversas
telefônicas da maneira mais indiscriminada, de usar o Estado
da forma mais pessoal e subjetiva possível

Tudo com o devido “amparo legal”. Não é a promotora a ré neste processo, mas a Promotoria. Esta, sim, deveria ser revisada de forma a impedir que uma pessoa detenha poderes tão grandes.
 A ingerência do Estado na vida do indivíduo precisa observar as fronteiras mais rígidas, impostos pela Constituição, sob pena de se transformar em uma máquina capaz de infligir aos cidadãos os piores vexames. É preciso questionar a estrutura do Poder Judiciário, e não apenas condenar a promotora que se finge de louca, ou algum juiz que saia por aí dando voz de prisão por atacado, segundo dizem.  Nenhum ser humano deveria deter o direito de mover a mão pesada do Estado sobre um brasileiro, seja ele quem for, sem que o seu ato seja apreciado por representantes de outros poderes, senão, que democracia é essa? Não faz muito tempo, o fascismo e o nazismo deram exemplos de sobra do risco que é investir um maluco de plenos poderes. Faz miséria.
A concentração de poder transforma aqueles que dominam o Estado em privilegiados, articuladores e manipuladores. No caso do juiz que se revoltou contra a empáfia da agente do bafômetro, ele é um homem de bem, culto, fino e educado. Em nenhum momento, porém, o Estado poderia lhe conceder (a ele ou a qualquer outra pessoa) poderes tamanhos, capazes de gerar acusações que lhe atribuam o fato de subjugar uma cidade inteira. No caso de desvios desta natureza, necessário é rever o conceito do cargo. Idem o caso da promotora doidivanas do Planalto Central.
Pior que estas personagens do limbo em que a sociedade se encontra, como um todo, ainda há a mídia conservadora.  Além de conduzir a opinião pública sempre na direção da chapa branca, de interesse deste Estado superdimensionado e dominado por figuras como a promotora que, se fosse atriz, morreria de fome, impede de forma rotineira que opiniões divergentes como esta, expressa neste artigo, cheguem ao conhecimento dos leitores. Por isso, viva a liberdade de imprensa e a existência dos meios corajosos de comunicação que insistem em remar contra a corrente de um oceano obtuso e buscar a verdadeira fonte da verdade e da justiça.
 

Colaborador: Sergio Nogueira Lopes

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