Atualizado em 02/04/2011 08:00:00
Essa história de carnaval, alegria do povo, é mesmo um chiste. O Rio de Janeiro viveu o carnaval mais popular, depois de tantas décadas, e no correr dos blocos seguiram junto as idiossincrasias de uma sociedade distorcida por valores contraditórios. Ora pensa que alegria é o mesmo que encher a cara. Ora prende os mijões por se aliviarem onde deveria existir um banheiro químico. E a distorção está exatamente na forma como o poder público convive com a iniciativa privada, ao sequer imaginar que, se um folião bebe dez litros da cerveja, aquela da boa, terá que dar destino ao aguaceiro em algum canto. Assim, se a cerveja vendida no bloco patrocinado pela cervejaria precisa ser eliminada – e o será, inexoravelmente –, o banheiro não precisa ser público, e sim, tão privado quanto o lucro obtido na venda das latinhas, latões, litros, conteineres de uma indústria mundial. A instalação de banheiros coletivos nestas datas deve tornar-se obrigação das cervejarias.
Na visão paternalista de um Estado obtuso, a Prefeitura se compromete – com dinheiro público – a pagar o custo das centenas de casinhas, produzidas por uma empresa tão privada quanto o líquido que recolhe para os blocos que reúnem até mais de um milhão de foliões. Mesmo às centenas, o custo para o erário é absurdo, pois deveriam os recursos obtidos com os impostos ser destinados à educação, às redes de águas e esgotos, ao transporte, à moradia, e nunca como uma espécie de subsídio à bebedeira, como se vê no carnaval. A alegria aí sobra apenas para os sócios das boas, na devassidão do conluio tácito entre quem pode e quem pode mais. O mesmo acontece com o deslocamento de policias e equipamentos pagos pelo Estado para garantir a organização de eventos privados como jogos de futebol no maracanã e outros locais que fazem a alegria e o lucro de poucas empresas. Estas sim deveriam pagar para manter a ordem em seus eventos. Ao Estado cabe a segurança pública. A brincadeira lúdica dos bate-bola, dos bloquinhos do sujo, do carnaval como expressão de cultura e folclore, esse vai longe do Rio. Talvez em alguma vila encrustada no relevo mineiro ainda haja a expressão inicial desta festa hoje controlada, sim, por titãs da globalização.
O que apresentam hoje em dia, na Avenida Marquês de Sapucaí, há muito não é mais a força da comunidade, unida em torno da satisfação de um trabalho conjunto, de mãos unidas na construção de uma realidade, ainda que fantasiosa, mágica, sempre melhor do que a face da miséria, a fome de tudo, o abandono a que estão degredadas há séculos. O sintoma está expresso na força do carnaval de rua, que – pasmem – interrompeu por mais de cinco horas a principal artéria de ligação entre as zonas Oeste e Sul e o Centro do Rio, na segunda-feira, aquela que não é feriado mas ninguém trabalha direito, exceto as padarias e botequins. O histórico bairro de Santa Teresa com suas ladeiras estreitas e bondes reformados, alguns já danificados, foi tomado por um mar de foliões seguidos de perto por incontáveis vendedores de bebidas, em uma espécie de simbiose alcóolica. Por conseguinte, resta um bloco de mijões cercado por meia-dúzia de guardinhas para garantir o marketing do poder público na imprensa desavisada, que se preocupa apenas em contar o número de bêbados detidos para receber um pito do delegado, se tanto.
Sem acesso aos camarotes da Carnaval e Cia. S/A, com sede na Avenida Marquês de Sapucaí, volta-se ao início. No século retrasado, apenas os ricos de verdade e os bem-vestidos e mequetrefes de plantão conquistavam os valiosos ingressos para os clubes cariocas e as sociedades organizadas. O pierrô apaixonado, as marias bonitas e seus lampiões, o folião-pipoca e sem abadá, estes precisam pular o carnaval com necessidade idêntica à daqueles incontinentes urinários pelas ruas da cidade. Se não podem ver, ao vivo, o show das escolas de samba, na passarela internacional, escoam pelas ladeiras, escorregam nos paralelepípedos e se acabam na folia, à beira-mar. E, sob o disfarce perfeito de uma cidade belíssima, em seu contorno natural, pairam nas sombras as grandes corporações. Elas tratam de manter, a ferrolhos, o controle já absoluto sobre uma festa que, um dia, já foi popular.
Diante da primazia do esculacho sobre o mínimo de coerência, o que é mesmo lamentável está na cumplicidade das penas amestradas ao descaso insano destes que organizam este e outros movimentos relevantes na vida do país. Os patrões são os mesmos que, prontamente, lançaram-se à aventura da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Se no carnaval, aquele que deveria ser – ao lado do Réveillon em Copacabana – o maior evento do ano e que todos os anos acontece, de um jeito ou de outro, é essa demonstração de inabilidade com os conceitos mais primários de logística, salve-se quem puder em 2014 e 2016. Ainda assim, a mídia comprometida e amordaçada pela força misteriosa, aquela mesma que transforma banheiros em subsídio, ainda insiste em aplaudir o Estado tomado pela insanidade.
Salvem o Rio de Janeiro.
Colaborador: Sergio Nogueira Lopes
MAIS NOTÍCIAS
Últimas Notícias
Sergio Nogueira Lopes
Tribuna da Imprensa
Eduardo Borgerth Teixeira
Observatório
Alfredo Rainho
Artigo Livre
Luiz Marcos Gurivitz
Comportamento
NOTÍCIAS
JORNAL PRIMEIRA HORA
Copyright 1995-2010 Jornal Primeira Hora, Todos os direitos reservados.