Atualizado em 05/03/2011 00:00:00
Há pouco mais de três décadas, nos idos dos anos 80, em pleno desenvolvimento da economia mundial, com o fortalecimento da classe média norte-americana e, por tabela, a do Brasil idem, ainda que bem menos do que a aquela traduzida nas crianças coradas do Maine e nas famílias loirinhas do Kansas, um expoente da contracultura já mostrava a realidade do porvir. Sim, pois aos loucos, artistas e profetas cabe o dom de antever o curso da humanidade, muitos anos além no calendário gregoriano.
Os hippies de então, ao som cáustico do The Doors, renderam homenagens ao pintor performático e filósofo Andy Warhol, expoente da arte pop e de um estilo único, capaz de incluí-lo naquela rara categoria dos anjos desgarrados, de cabelos brancos e revoltos, que trazem ao mundo as suas trombetas. No caso, eram as latinhas de sopa Campbell e as vaquinhas malhadas.
Gênio, ele anteviu, em meio à névoa da ignorância tecnológica, um mundo no qual a mídia seria o totem no qual a sociedade instalaria o olho que tudo vê. E, diante do inevitável planeta globalizado, Warhol profetizou que cada ser humano, do presidente dos EUA ao lixeiro de um subúrbio de Bangladesh, todos teriam assegurado o direito de aparecer para o mundo e ter acesso aos seus 15 minutos de fama.
A previsão cataclísmica foi uma excitação só, na época, e até hoje. Caiu como água para o deserto. No Ocidente industrializado, com a propaganda em alta e o sistema econômico musculoso da Wall Street exibindo-se à periferia tupiniquim, da Avenida Paulista ao Leblon não faltava um paspalho que não construísse, como constroem até hoje, um circo no qual sonham com o trapézio, mas, se preciso, usam um nariz vermelho para o deleite do respeitável público.
Nos segundos contados, sob os holofotes da mídia, a chance de ser famoso é um estado de espírito que inebria e seduz as mentes mais vazias. De sua parte, a mídia, veículo do glamour como a agulha na veia dos drogados, multiplicaram-se de forma desmedida até que o trapezista e o palhaço já não faziam sucesso por eles mesmo. Como na velha Roma, mesmo o mais sangrento dos combates na arena já não empolgava mais o Coliseu.
Assim, ao invés de privilegiar a educação, os meios de comunicação renderam-se ao espetáculo. Seja este um dos clássicos que, há séculos, cumprem seu destino de chacoalhar a alma humana, aplaudamo-lo. Mas não. Trata-se do rasteiro, vil e desqualificado espalhafato aquele que mais agrada ao gosto da boca amarga e desdentada da turba ignara. Funciona assim.
Com o Febeapá (Festival de Besteiras de Assola o País, percebido pelo sempre genial Stanislaw Ponte Preta) instalado nas plagas brasileiras, aumentou muito a demanda, de dimensões continentais, pela banalidade. Soube que o maior exemplo da previsão warholesca, e me perdoem o neologismo, esse programa que reúne um monte de gente dentro de uma casa, fechados como gado na engorda, anda em baixa junto à audiência. Boa notícia, mas é inevitável a saturação do grau de idiotice das notícias fúteis e as informações banais que nos assaltam diariamente.
Nesse caldo de cultura, a porção venenosa que restava no fundo das latas de uma sopa genial aparece na massificação que transforma, em instantes, como num passe de mágica, quase que por encanto, próceres da nação que ora desponta no panorama mundial em parias de um Brasil medíocre, invejoso, mesquinho. Ninguém escapa dessa rede social, de ídolos da bola, a galãs do cinema ou TV. Mesmo pessoas respeitáveis e admiradas, ao longo dos anos, em questão de segundos são expostas à nódoa que transforma os 15 minutos de fama em uma existência de difamação.
O exemplo mais republicano é o do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antes bajulado, logo após descer a rampa do Planalto, é exposto à ira da mídia por uns poucos minutos de descanso, em um quartel qualquer no litoral paulista. Mesmo autoridades, dedicadas ao bem-estar social, são alvo de denúncias vazias, em cartas anônimas, que se transformam em um pesadelo até que a verdade venha à tona.
Na velocidade dos fatos, ainda que distante da época em que vicejou o artista norte-americano, não é difícil se antever que teremos todos, democraticamente, os tais 15 minutos, mas de difamação. Afinal, foi outro gênio, desta vez na música brasileira, já havia percebido que, “no Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. A bênção, Tom Jobim.
Sergio Nogueira Lopes Sociólogo e escritor.
Autor do livro “Opinião Giratória”, entre outros.
Colaborador: Sergio Nogueira Lopes
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