Holocaustos e Genocídios no Século XX
Hereros (África), 1904
Os Hereros, um povo da África Oriental, comandados pelo chefe
Samuel Maharero, rebelam-se contra o domínio colonial alemão.
Após algumas tentativas inúteis de apaziguamento da luta, o governo real de Berlim enviou o general-de-divisão Lothar Von Trotha para comandar as tropas coloniais alemãs. Von Trotha adotou desde o início o conceito de guerra de extermínio, de acordo com o qual ele não procurou simplesmente vencer os Hereros por meios militares, mas os impeliu para o extermínio no deserto de Omaheke, onde ocupou todas as nascentes de água, provocando pura e simplesmente a morte de seus adversários pela sede. Esta estratégia foi tão bem-sucedida quanto fora cruel; foi relatado que os sedentos cortavam as gargantas de seus animais para beber-lhes o sangue e que finalmente esmagavam seus intestinos para deles retirar os últimos restos de umidade. Não obstante, acabaram morrendo. Apesar dos veementes protestos na Alemanha contra a violência das tropas coloniais, a perseguição aos Hereros continuou. Estima-se que, ao todo, entre 24.000 e 65.000 hereros (aproximadamente 50% ou 70% do total da população herero), e 10.000 namaquas (50% do total da população namaqua) tenham perecido. Em 1911 sobreviviam apenas 15 mil hereros, na sua maior parte mulheres e crianças. A existência dessa etnia e sua identidade cultural extinguiram-se.
Curdistão, 1919/99
O conflito com a Turquia, o Irã e o Iraque custou milhões de vidas ao longo do século. Mas está por provar que esta guerra de guerrilha seja no seu todo considerada como um ato de genocídio. Falta a premeditação que leva um grupo a procurar a destruição parcial ou total do outro. À margem dos conceitos e da terminologia, os bombardeamentos com gás venenoso feitos pelos iraquianos, por exemplo, revelam uma clara atitude genocida.
Ucrânia, 1932/33
A coletivização dos campos decretada por Stalin encontrou nos camponeses ucranianos (kulaks) fortíssima resistência. Classificados como “inimigos da classe” e “contra revolucionários”, os camponeses foram alvo de sucessivas perseguições e depois de falhar o objetivo de produção da campanha de 1932, os armazéns de cereais foram esvaziados e as aldeias cercadas. No Inverno de 1932 a fome instala-se e vitima entre 5 a 7 milhões de pessoas.
Alemanha, 1933/45
De início, o regime nazista preocupou-se apenas em depauperar os 600 mil judeus alemães. Em 1941, os 3000 homens dos esquadrões da morte, assassinaram entre um a dois milhões de Judeus. Como a sua capacidade se mostrou insuficiente para liquidar os 11 milhões de Judeus na Europa, Goebbels, o número dois das SS, concebeu a solução final, que matou seis milhões de Judeus.
Nota: A partir do
século XIX, a palavra holocausto passou a designar grandes catástrofes e massacres, até que após a
Segunda Guerra Mundial, o termo Holocausto (com inicial maiúscula) foi utilizado especificamente para se referir ao extermínio de milhões de pessoas que faziam parte de grupos politicamente indesejados pelo regime
nazista fundado por
Adolf Hitler. Havia judeus, militantes
comunistas,
homossexuais,
ciganos,
eslavos, deficientes motores, deficientes mentais,
prisioneiros de guerra soviéticos, membros da elite intelectual
polaca,
russa e de outros países do
Leste Europeu, além de ativistas políticos,
Testemunhas de Jeová, alguns sacerdotes
católicos, alguns membros
mórmons e
sindicalistas, pacientes psiquiátricos e criminosos de delito comum.
Então, depreende-se que o Holocausto não foi uma ação visando exclusivamente os judeus, como a maioria das pessoas acredita. Shoá (?????), também escrito da forma Shoah, Sho'ah e Shoa, que em
língua iídiche (um dialeto do alemão falado por judeus ocidentais ou
asquenazis) significa
calamidade, é o termo desse idioma para Holocausto. Shoá é usada por muitos judeus e por um número crescente de cristãos, devido ao desconforto com o significado literal da palavra holocausto, de origem grega e conotação relacionada com a prática (descrita no Antigo Testamento) de expiação de pecados por incineração; os defensores dessa substituição argumentam que é teologicamente ofensivo sugerir que o massacre de judeus (e dos demais grupos indesejáveis aos olhos de Hitler) da Europa tenha algo a ver com um sacrifício a Deus. No entanto, reconhece-se que o uso corrente do termo holocausto para referir-se ao extermínio nazista não tem essa intenção.
China/Japão, Anos de 1930
A destruição sistemática de cultura tibetana não costuma constar nos anais do genocídio do século. Ainda na China não foram inscritos entre os atos de genocídio os fuzilamentos em massa perpetrados na sequência da invasão japonesa nos anos 30. O objetivo, no entanto, era o aniquilamento dos chineses e coreanos, considerados “inferiores” pelas forças invasoras. No massacre de Naking, em finais de 1937, 300 mil pessoas foram assassinadas a sangue frio.
Rússia/Polônia, 1940
Criméia e Volga, 1941
Com a abertura da frente Leste pelo exército alemão no decorrer da segunda guerra mundial, Stalin decreta a deportação dos alemães do Volga e dos povos localizados em áreas estratégicas que, manifestamente, se tinham oposto ao reforço do regime. Cinco milhões de alemães, chechenos, tártaros e inguches foram levados à força para as estepes geladas da Sibéria ou para a Ásia Central. Não se sabe ao certo quantos pereceram.
China, 1949-1975
Mao Tse-Tung é acusado de causar, com seus programas sociais e políticos (como o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural), fome intensa e danos à cultura, sociedade e economia da China. Estima-se que as políticas de Mao e os expurgos políticos de 1949-1975 tenham provocado a morte de 50 a 70 milhões de chineses.
Indonésia, 1965
Em seis meses contados a partir de Outubro de 1965, entre 250 mil a meio milhão de pessoas, na esmagadora maioria militantes do Partido Comunista da Indonésia (PKI), foram assassinadas. O PKI, na época o maior do mundo ocidental, tinha garantido a participação política com 16,4 % dos votos nas eleições de 1954, mas um golpe militar travou-lhe o caminho. Foi este episódio que levou o linguista Noam Chomsky a invocar um “arquipélago de sangue” como contraponto ao gulag comunista ocidental.
Burundi, 1972
Uma revolta de maioria Hutu a 29 de Abril provocou entre 2000 a 3000 mortos entre a população Tutsi, que controlava o poder. No dia seguinte, o presidente decreta a lei marcial e até ao final do verão desse ano uma vaga de terror provoca entre 100 a 200 mil mortos na etnia rival. Todos os intelectuais hutus foram assassinados ou exilados para os países vizinhos.
Timor, 1975/79
Em Janeiro de 1975, o regime indonésio, com a cumplicidade dos EUA e da Austrália, decide invadir o território. A brutal “Operasi Komodo” é desencadeada a 7 de Dezembro. Até que as primeiras testemunhas independentes possam entrar no território, em 1979, calcula-se que 200 mil timorenses tenham sido mortos. As atrocidades indonésias só entraram nos debates da comunidade internacional depois do massacre de Santa cruz, em Novembro de 1991.
Camboja, 1975/79
Depois dos bombardeamentos norte-americanos terem provocado mais de 150 mil vítimas no conflito do Vietnam, o Camboja tornou-se num imenso campo de morte com a subida ao poder do Khmer Rouge de Pol Pot. Em quatro anos, 20% da população (1,7 milhões de pessoas) sucumbiram aos trabalhos forçados, à fome e às doenças.
A utopia de Pol Pot era recriar a grandiosidade de Camboja medieval á custa do sacrifício coletivo.
Ex-Iugoslávia, 1991/96
Os eruditos discutem ainda sobre os conflitos na ex-Iugoslávia, e se são ou não enquadráveis nas práticas convencionadas de genocídio, mas mesmo que possam subsistir dúvidas no processo general, há evidentes episódios que entram nesta categoria. São os casos da expulsão e morte confirmadas contra grupos étnicos diferentes na Bósnia, Eslavônia e Krajina. Num conflito que deixou cerca de 326 mil vítimas, estão ainda por separar os custos diretos das perseguições étnicas e da guerra civil.
Ruanda, 1994
Depois de uma insurreição falhada em 1959/62, os filhos dos tutsis ruandeses que se tinham refugiado no Uganda invadem o seu país de origem. Os hutus, 85% da população organizam a defesa e em 1992 dispunham já de um complexo aparelho de extermínio. O assassínio do primeiro presidente hutu do vizinho Burundi, Malchior Ndadaye em 1993, e a morte do presidente ruandês, em 1994, desencadeiam o processo: em menos de três meses 700 mil tutsis foram chacinados.
Colaborador: Redação