Atualizado em 21/08/2010 00:00:00
Nossos avós saiam de casa para pegar o bonde, cumprimentavam um ou outro vizinho que encontrassem na rua, ou simplesmente com a mão direita levantavam ligeiramente o chapéu da cabeça como saudação. As pessoas em geral se conheciam e mesmo havia o antigo hábito, talvez herdado da Europa, do novo morador visitar os vizinhos, da esquerda e da direita e da casa em frente. Esses contatos também serviam para as fofocas inerentes a relações humanas. Sabiam a profissão dos vizinhos e onde trabalhavam.
Hoje saímos de casa, caminhamos até a esquina para pegar a van, ou abrimos o portão com o controle remoto para por o carro na rua, sem olhar as casas vizinhas, nem as pessoas na rua. Não sabemos muitas vezes quem mora ao lado. A segurança da casa é garantida pelo alarme, pela câmera, pagos a uma ‘empresa de segurança’. Nossa observação do que ocorre na rua, pouco importa. Temos outras preocupações.
Nossos avós sabiam o que ocorria na cidade, no país e no mundo pelo jornal da manhã, pela edição do meio dia e finalmente pelo jornal da tarde, vendido nas ruas por garotos, pelos chamados ‘pequenos jornaleiros’ (que receberam de D. Darcy Vargas a ‘Casa do Pequeno Jornaleiro’, isso no tempo de Getulio Vargas). Jornal era importante, três edições. Ao chegar em casa os nosso avós ligavam o rádio para ouvir notícias (Repórter Esso), música e anúncios. A novela veio depois.
Hoje recebemos informação aos montões, um sem número de canais na TV, temos o radio de pilha, o celular, a internet (com jornais de todo o mundo e em tudo que seja língua falado por gente) e tudo mais. A informação direta, coletada na fonte, passou para segundo plano, não temos tempo de olhar a rua para correr em chegar em casa e ligar a TV: a novela vai começar, não se pode perder. Nossos avós não tinham nada disso, mas recebiam o vizinho para tomar uma xícara de café, rolar um bate-papo e estar a par das notícias locais.
Búzios, felizmente, não tem prédios de apartamentos, é uma cidade plana, horizontal. Mas ao sairmos de casa deveríamos observar com atenção a nossa rua e as seguintes, observar se houve alguma mudança, notar algo de diferente. Por perto na mesma rua ou numa próxima pode existir ponto de venda de drogas, um morador armazenar fogos de artifício em quantidade perigosa ou mesmo observar um morador que receba visitas incomuns. Não podemos policiar nosso bairro, isso cabe mesmo aos PMs e para isso pagamos impostos, mas a observação diária do comportamento dos vizinhos (não se trata de fofocar), pode ser um pequeno elemento que concorra de certa maneira para a nossa própria segurança.
Não sou técnico no assunto, são simplesmente idéias gerais que me ocorrem.
Morei na Alemanha, em Berlim, num bairro calmo, em que à noite poucos carros ficavam estacionados na minha rua. Certa vez às 4 da manhã tocam a campainha. Vejo dois policias. Abro a porta e me perguntam se tudo estava em ordem. Estranhei a visita àquela hora e respondi que sim, tudo estava bem. Mas estava curioso do motivo da visita da Polizei àquela hora. Responderam-me que haviam estranhado meu carro, um Peugeot 604, estar estacionado na rua e não guardado na garagem, como era habitual. Agradeci a atenção e expliquei que havia chegado tarde em casa, cansado (não quis dizer preguiça) e preferi deixar o carro na rua por ser bem tranquila. Fiquei assim sabendo que a policia controlava minha casa. Excelente!
Colaborador: Alfredo Rainho
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