Atualizado em 22/07/2010 00:00:00
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Fica muito longe, lá do outro lado do planeta, o pequeno país (menor que Sergipe), ocupando parte de uma ilha, chamado oficialmente República Democrática do Timor Leste, em português, e na segunda língua oficial, ‘tétum’, tem o nome de Repúblika Democrátika Timor Lorosa’e. Como Timor Leste foi colônia portuguesa durante séculos e faz parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, temos a impressão de que o português é a língua corrente, falada pelo povo.
Não é bem assim, a língua falada por oitenta por cento (80%) da população de um milhão de habitantes é o ‘tétum’, oriunda do malaio, com semelhanças com o indonésio, mas incluindo muitas palavras portuguesas. O português mesmo é falado por uma minoria de ascendência lusitana e não chega a 5% da população. Jornais e TV também em tétum. Na constituição são consideradas ainda como ‘línguas de trabalho’ o inglês e o indonésio. Portugal e o Brasil enviam professores para Timor Leste num esforço de promoção da língua portuguesa e de sua cultura.
A história do pequeno país é curiosa. Como outros territórios na Ásia foi possessão portuguesa desde o século 15. Depois da II Guerra Mundial, por força do processo de descolonização, com o fim de colônias européias, a Indonésia, até então colônia holandesa, se tornou independente. Assim, metade da ilha Timor, a parte holandesa passou ao novo país, mas Portugal manteve sua colônia na ilha com um ‘daqui não saio’. Foi levantado um clamor universal contra Portugal por querer manter suas colônias enquanto todos os outros países colonizados haviam adquirido a independência. A Indonésia em 1975 ocupa Timor Leste. Isso não agradava aos países ocidentais, encabeçados pelos Estados-Unidos, uma vez que a Indonésia era um país de maioria muçulmana e com boas relações com a China comunista. Assim, a ocupação de Timor Leste pelo governo de Jacarta foi condenada pelas Nações Unidas e o país obteve a independência em 1999. Era importante que, assim, os Estados Unidos pudessem, se necessário fosse em caso de conflito mundial, dispor de uma conveniente base militar na região.
Por outro lado, como a capital Díli fica a 600 km de distância da cidade australiana Sidney, Timor Leste cai de maneira inequívoca na zona de influência australiana. Desde 2006, 750 soldados australianos e neozelandeses permanecem permanentemente no país a título de garantir a segurança. Companhias australianas obtiveram as concessões para a exploração do petróleo e do gás no litoral timorense. Os lucros auferidos são divididos 18% para Timor Leste e 82% para a Austrália.
A estrutura do idioma tétum é simples, semelhante à do malaio e do indonésio, embora inclua muitos vocábulos de origem portuguesa. É fácil aprender a falar tétum, assim como indonésia ou o malaio, enquanto o português é complicado e difícil. (Posso dar meu testemunho: já morei na Indonésia e conheço o idioma ‘bahasa indonésia’). O inglês leva a vantagem de ser universal, ser falado pela Austrália, o forte país vizinho que procura manter forte presença na economia e na política timorense. O português fica em desvantagem.
No ano passado chegou a Brasília o primeiro Embaixador de Timor-Leste, Domingos de Souza, renomado escritor timorense, que naturalmente escreve em português. Numa entrevista a um repórter brasileiro escapou um pequeno lamento: ‘Há uma camada mais jovem em meu país que só me leu em traduções inglesas’. Timor Leste poderá se tornar a ser um satélite australiano (se já não é) e o inglês ocupar o lugar de segundo idioma, depois do tétum.
Colaborador: Alfredo Rainho
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