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Quarta-feira , 26 de Nov 2014

Atualizado em 30/11/2006 00:00:00

Promotor do caso Leila Diniz / Doca Street fala do crime que abalou o Estado

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Professor de artes marciais e praticante de tiro, o promotor criminal Sebastião Fador Sampaio, de 62 anos, 34 dos quais no Ministério Público, não  mudou sua rotina anteontem. Não passou por perto da Casa de Cultura José de Dome, em Cabo Frio, onde Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, de 71 anos, fez uma palestra e participou de um debate no lançamento do livro « Mea Culpa» , que conta a história, na versão de Doca, de um dos crimes passionais de maior repercussão no país.

Doca Street voltou a Cabo Frio 30 anos depois de ter assassinado a tiros, na praia dos Ossos, em Búzios, então distrito de Cabo Frio, a socialite mineira  Ângela Diniz , a «pantera de Minas» . Defendido por juristas, comandados pelo Evandro Lins e Silva, Doca foi condenado a dois anos de prisão no primeiro julgamento. O promotor Fador Sampaio recorreu e, no segundo Júri, conseguiu a condenação de Doca, defendido por Humberto Telles e outros advogados, a 15 anos de prisão. Embora já pudesse estar aposentado há 13 anos,  o promotor continua, depois de recusar várias promoções, à frente de uma das Varas Criminais de Cabo Frio.

- Não era compatível nem ético prestigiar a palestra de um assassino. Mas, como cristão, o respeito como todo ser humano, acredito na sua recuperação e o receberia em meu Gabinete, como faço com qualquer pessoa,  desde que o assunto não fosse o crime que ele praticou - disse o promotor, que só pensa em deixar o MP, onde já participou de mais de 600 julgamentos, quando chegar na idade limite de 70 anos.

Sampaio lembra que, no segundo julgamento, falou durante duas horas. Na réplica, acusou Doca Street durante 15 minutos e deixou os outros 15 minutos para o assistente de acusação, Heleno Fragoso.

- No primeiro julgamento, tinha muita gente na acusação, o que acabou beneficiando o réu. No segundo, eu falei praticamente sozinho e a opinião pública, principalmente o movimento feminista, se rebelou contra Doca Street, condenado por homicídio duplamente qualificado por motivo torpe.

Ele recusou promoções para permanecer em Cabo Frio

Fador Sampaio assumiu a Vara Criminal de Cabo Frio, quando o juiz e o promotor das cidades  do interior tinham direito a moradia paga pelo Tribunal de Justiça e pelo MP.  Era uma fórmula de economia, porque o promotor, naquela época, não era bem remunerado. Ele recusou promoções, que o traria para a capital ou para Niterói, sua cidade natal. No governo Chagas Freitas, foi promovido por um erro burocrático. Teve que recorrer ao Conselho do MO para tornar a promoção sem efeito.

- Minha recusa por promoções é permanente porque faço o que gosto e prefiro a praia e a vida tranqüila do interior - disse o promotor, que no início do mês foi agraciado com a medalha Major Belegard, a maior comenda municipal.

Filho de uma tradicional família de Niterói, Fador Sampaio tem dois irmãos, Oswaldo e Geraldo, que são coronéis reformados da Polícia Militar. Ele disse que gosta de viver em Cabo Frio, onde criou seus filhos:

- Minha vida é minha família e meu trabalho. Gosto muito de praticar e ensinar artes marciais, praticar tiro ao alvo e caminhar na Praia do Forte. Fiquei muito honrado quando recebí a mais alta comenda dada a personalidades de Cabo Frio. Fiquei feliz porque conquistei esta honraria com trabalho sério ao longo dos anos. Sou respeito e respeito a todos - disse o promotor.

Doca Street matou Ângela Diniz, com quem vivia há três meses, na noite de 30 de dezembro de 1976. Ângela pretendia se separar de Doca. Naquela noite, depois de ásperas discussões, ela acabou anunciando a decisão. Ângela expulsou Doca  de casa. Ele saiu, mas voltou. Depois de novo bate-boca, Doca Street a matou com quatro tiros de pistola à queima-roupa. (RBF)

Colaborador: Jorge Werthein

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