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Segunda-feira , 21 de Dec 2014

Atualizado em 26/02/2010 00:00:00

Soca: Perseverança e Garra dos Vencedores

3_soca_26_02_10Soca começou a pescar aos 12 anos para ajudar o pai no sustento dos dez irmãos. Conhecia cerca de 600 pontos de pesca em Búzios

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Soca não está mais entre nós. O mergulhados foi sepultado na manhã de segunda-feira (22) no cemitério de Sant’Anna vítima de uma parada cardio respiratória sofrida na tarde de domingo em Cabo Frio. Soca havia feito uma cirurgia cardíaca recentemente e passava bem. No inicio do ano chegou a enviar um teclado do leitor para o PH agradecendo a preocupação de todos e dizendo que tudo havia corrido conforme o esperado em sua cirurgia. Meses antes da operação o mergulhador esteve na redação do Jornal, a convite do editor, trazido por um amigo. Na ocasião Soca, otimista com a operação que estava por fazer contou várias histórias, trouxe imagens de suas aventuras e disse que ainda gostaria de tentar dar uma colaboração maior a sua terra concorrendo a um cargo público. Ele manifestara na época desejo de se filiar ao PV e concorrer a uma cadeira na Câmara ou colocar seu nome a disposição para uma coligação onde o partido pudesse vir a ter um candidato à vice prefeito.

Soca, nasceu em15 de dezembro de 1951 com a parteira Mariana, como a maioria dos 14 irmãos, na casa da família na Rua das Pedras onde depois funcionou o restaurante Au Cheval Blanc. Filho de Edelpídio Melo da Silva (Seu Pide) e de Dona Benedita, sempre conviveu com duas histórias lendárias da aldeia buziana: a da morte do avô comido por tubarões e a da fama de benfeitor do pai.

Perseverança dos vencedores

Ao longo de sua carreira profissional, Soca conquistou vários prêmios dentro e fora do Estado, argumentando sempre que o mais importante para ser se ter sucesso na vida e na carreira é a perseverança: acostumado a dizer o que pensava ‘na lata’ de seu interlocutor, Soca colecionou admiradores e amigos ao longo dos anos, mas também despertou raiva e inveja em alguns.

Captura de Meros de 300 kg mudou tudo

Soca se arrepende de matar de uma só vez ‘familia’ de peixes indefesos

Em junho de 1999 Soca capturou seis meros de quase 300 quilos cada, em um único mergulho. O peixe, que na época já estava em vias de extinção em nossa costa, tem baixo valor de venda e é praticamente indefeso. Na ocasião após o ‘feito’ Soca mostrou arrependimento e chegou a declarar que estava muito triste em ter matado aquela ‘família’ de peixes. ‘Estou mais consciente: refleti e acho que agora pensaria duas vezes antes de matar um mero’, disse à época. Pouco depois Soca retornou ao local onde havia feito a pesca da ‘família’ de meros e apenas fotografou um dos que estavam lá no local. Inofensivos apesar do tamanho descomunal, o mergulhador chegou a sujar a lateral de um deles com areia do fundo do mar e com o dedo escreveu seu nome ‘Soca’ ajudado pela gosma natural da superfície escamosa do peixe. Aquele ato representava um gesto de carinho e comunhão com os peixes, que ao invés de receberem um arpão atravessado pelo seu corpo recebiam daquela maneira uma singela assinatura feita embaixo do mar. Depois do episódio Soca chegou a declarar que ‘gostaria que as pessoas não matassem mais esses peixes grandes: é difícil dar esse conselho porque é uma glória para quem consegue matar um peixe assim, mas eu gostaria que tivessem mais consciência’, disse em 1999.

Depoimentos do pescador

- Dizem que sou o maior mergulhador do Brasil, isso porque conheço bem toda essa região. Se a mosca azul não me morder, serei um bom representante do povo na Câmara dos Vereadores. Sempre tirei o meu sustento do mar e não é porque entrei para a vida política que vou mudar de opinião – Soca, Jornal Buziano – Junho de 2004.

- Quem trabalha em alto mar já está percebendo os cardumes se aproximando de Búzios. Lá fora a sardinha já está grossa e este ano vamos ter muita fartura por aqui. Sardinha frita, servida com cerveja, em casa ou num barzinho, é muito gostosa! Pesco muito na temporada e pouca gente sabe o seu valor nutritivo – Soca, Jornal buziano – Abril de 2003.

– O que os pescadores de Búzios não têm é disposição para ir buscar o peixe lá fora, em alto mar, como fazem os bons profissionais. Como Búzios se transformou em uma cidade turística, a maioria deles prefere ficar aqui mesmo costa, esperando para ver o dá. Depois reclamam que o mar não está pra peixe – Soca, Jornal Buziano – janeiro de 2004.

 

Soca, um pescador

Aníbal Fernando

Ele se chamava Wilson Santos da Silva, teve sete filhos que lhe deram seis netos. Morava ele na rua do Sossego, uma travessa no Centro da Cidade e às vezes ali na praça da Mandrágora. Não posso dar detalhes. O fato é que foi ele um pescador de profundezas – de mergulho. Sabia as tocas onde os grandes peixes viviam e eram criados.

Conhecia-os quase pelos nomes porque acompanhava seus crescimentos. E nunca arpoou uma fêmea. Soca – assim ele era conhecido – foi um pescador de grandes peixes. Vocês já viram um mero adulto? Pois bem, é um peixe que pode passar dos 200 quilos. E alimenta muita gente.

Fazia ele parte de uma linhagem de pescadores de mergulho. Andou em outras aventuras: procurando barcos antigos naufragados, com um amigo, cujo nome já diz tudo, Léu Grande, que hoje é pintor e mora em Cabo Frio. Eram catadores de antigos tesouros perdidos. Acho que não foram muito felizes.

Teve um dia que ele abriu uma telefônica, ali mesmo, na rua do Sossego. E a gente ia lá telefonar para os parentes distantes. E tínhamos que falar alto, não era como hoje - o mundo da amplificação e dos celulares. E nós, perdidos nessa pequena península, gritávamos no fone. Resultado: todo mundo, mesmo sem querer, ficava sabendo da vida dos outros.

Soca foi um dia uma espécie de secretário da pesca. Ar-

mou uma reunião de pescadores para decidir coisas do setor. Evidentemente que nada foi resolvido. Porque os homens do mar são solitários por natureza. O que servia para um não era uma questão geral.

Na verdade, tratava-se de discutir diferenças. Quem passou sobre a rede de quem, que barco perseguiu o outro, atrás do cardume. E assim por diante. Discutiram-se coisas mais pessoais que o bom senso não me permite comentar. E Soca no final da reunião me falou, como um desabafo: não tem jeito.

Ele me procurou ainda uma vez. Na praça Santos Dumont. Queria contar a história do fundo de mar de Búzios. Pois é: está lá até hoje o esqueleto de um pequeno navio – o Galgo – que transportava bananas para o Rio de Janeiro, plantadas por um alemão, Sr. Honold, que um dia levou uma mordida de um cão e foi um dos desbravadores desta nossa terra.

Dizem – ele disse – mas pescador mente um pouquinho – que havia outra ruína marítima, em frente à praia do Canto que abastecia de banha, em lata, o esforço alemão de guerra. A segunda guerra. As latas vinham da Argentina – que era simpática ao Terceiro Reich, aquele que estava destinado a durar mil anos e naufragou em cinco apenas.

Tive com o pescador Soca, pela última vez, quando se restabelecia de uma operação do coração. Pontes de safena e outros bichos. Justo ele que nunca botou um cigarro na boca, que nunca tomou um trago. Não sei, não sei mesmo, mas a rainha do mar, que os poetas chamam de Iemanjá, com saudade, porque ele, Soca, não voltou às sua profundezas e o mandou buscar.

Colaborador: Rafael Ramos

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