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Terça-feira , 22 de May 2012

Atualizado em 20/04/2010 00:00:00

Quebrando Estatuas

Anibal Fernando

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Procurei mas não achei a Cristina Mota. Imaginei uma curta entrevista porque mais uma das suas estátuas, em bronze, amanheceu na semana mutilada. Sabem aquela mínima pracinha, próxima o PU de Manguinhos? Aquela do profeta (ou seria menos, um simples contador de histórias) que lê um grosso livro para duas crianças?

Amanheceu o profeta (vamos tratá-lo assim) sem o livro que segurava com as duas mãos. Foram-se as histórias, que nessa altura já devem ter sidas vendidas, a peso, em algum ferro-velho da vida. Uma peça da Cristina, ao menos uma parte dela, num depósito clandestino, esperando para ser derretida...

Triste fim. Mas Cristina, como sempre acontece, vai restaurá-la. Foi assim com a Brigite da Orla, que foi explodida duas vezes. Isso mesmo: na primeira tentativa quase arrancam a marretadas a cabeça da moça. Na segunda colocaram uma bomba entre seis seios generosos. Foi uma dupla mutilação.

Mas voltou Brigite para o atelier de Cristina, que a refez no fulgor dos seus 20 anos. Pena que não seja assim na vida real. Ali próximo fica o sorridente Juscelino Kubitschek o presidente voador (adorava voar) que resiste incólume, assim como os pescadores que ficam ali em frente. Na Rasa ninguém se atreve a chegar perto de Zumbi, o escravo insurreto, com seu filho que ele eleva aos céus.

Que eu saiba, aqui no nosso Estado, só mesmo as obras de Cristina perdem para as depredações de que foi vítima Carlos Drumond de Andrade, na av. Atlântica, que já ganhou uma dezena de par de óculos, a parte favorita dos vândalos, que nesse caso, podem ser de colecionadores.

Agora parece que acabou, mas na época da velha Cerj, ali pela altura do Centrinho, os ladrões roubavam a fiação, também de cobre – que não eram propriamente obras de arte, mas de valor e utilidade.

E temos também casos históricos, que fez dos Medicis, de Florença, os vilões, justo eles, os patronos das artes. Foi assim: Leonardo da Vinci, montava um gigantesco cavalo, sem cavaleiro. Por prudência preferiu não montar nele nenhum Medice. Confusão na certa, embora Leonardo fizesse tudo para jamais terminar um afresco ou qualquer obra, já que a chantagem aos fregueses era parte integral do negócio. Preferia Leonardo, como hoje sabemos, as maquetes e os esboços nos cadernos.

Quis porém o destino que Florença declarasse guerra a seus vizinhos. E o glorioso cavalo foi derretido para o fabrico de dezenas de canhões. Naquela altura muito mais preciosos. E coube a Leonardo projetá-los. E o fez, talvez com lágrimas nos olhos. Mas guerra é guerra...

Voltando ao motivo desta crônica, aconselhei meu editor a mandar entrevistar Cristina sobre seus dissabores de escultora. Ela não chegou à loucura do cavalo de Leonardo, que não caberia, creio eu, nem na praça Santos Dumont . Cristina, nessa comparação infeliz, seria uma minimalista extremamente competente.

Colaborador: Jorge Picciani

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