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Quarta-feira , 22 de Feb 2012

Atualizado em 16/12/2011 00:00:00

O Capital atormentado

O Congresso norte-americano acaba de aprovar a Lei Nacional de Autorização de Defesa, que confere poder ao governo daquele país, de usar as Forças Armadas contra a sua própria população, prender por tempo indeterminado norte-americanos em qualquer lugar do mundo, sem nenhuma acusação aparente ou o devido processo legal. A medida passou no Senado por 93 votos a sete. Segue, agora, para sanção do presidente Obama. O fato ocorre quase simultaneamente a maior mobilização já convocada naquele país nas últimas décadas, em apoio ao movimento ocupar Wall Street (OWS), que paralisou os principais portos da Costa Oeste e tende a recrudescer.
A violência contra os manifestantes que denunciam o imenso poderio do mercado financeiro sobre a vida de bilhões de seres humanos é mais um fator de consternação para todos os que tomaram por verdadeiro o país, cantado no hino nacional como a terra da liberdade, onde mora a bravura, “land of the free and the home of the brave”. E esse sentimento é devastador. Libertos da influência do capital que, normalmente esmaga as iniciativas contrárias à sua supremacia, os militantes do OWS planejam e realizam a mais longa e vigorosa marcha contra o poder controlado pelas grandes corporações e colocam em xeque o sistema que sustenta a nação-símbolo da democracia no mundo.
O fato é que começa a ficar claro, para a maioria das pessoas, de mediano entendimento, o real sentido da sociedade de consumo que rege a vida não apenas dos norte-americanos, mas de todos os habitantes dos países capitalistas do mundo e de parte das nações comunistas, salvo raríssimas exceções. O movimento que tenta ocupar não apenas Wall Street, mas todas as cidades dos EUA, paralisa os portos e, daqui há pouco, as estações de trem, as rodovias e os aeroportos para alertar sobre o dramático poder de destruição do capital desvairado que impôs ao planeta uma fórmula capaz de destruí-lo numerosas vezes, seja pelo efeito estufa causado miríade de automóveis em circulação, seja pelas bombas nucleares ou pela boca, envenenado por doses maciças de fast food. Enfim, uma tormenta sobre corpos e mentes que já não sentem mais a pujança de um mundo ascendente.
Atônito diante da onda de protestos que varre o mundo e abismado com as primaveras árabe e russa, ainda atordoado com os ataques do Talibã e as bombas no Iraque, o governo dos EUA encontra agora, na repressão dura aos seus próprios cidadãos, a única forma de tentar manter os dedos intactos e buscar de volta os anéis, em meio à balbúrdia em que se perderam nas ruas de Nova York, ou seja, estão todos autorizados a baixar o cacete na moçada e atingir, sem piedade a face plana da democracia. Este talvez seja o sistema de organização social mais ineficiente e perigoso já criado pela humanidade, embora siga como a forma considerada a mais próxima da representação da vontade popular.
Diante do ataque eficaz ao inequívoco pilar central da sociedade norte-americana, percebe-se que o cerne do capitalismo apodreceu e, na realidade, nunca foi sinônimo de democracia. Significa apenas lucro, juros, usura, desemprego, manipulação da opinião pública, concentração de riqueza, egoísmo e destruição. Acossado pela crise mundial que assola os países mais ricos do Ocidente, fica evidenciada a hipocrisia da placidez democrática exigida aos países pobres do Oriente Médio, da África e Ásia para que os EUA implantem, a ferro e fogo, o american way of life, entupido de hambúrgueres, refrigerantes e goma de mascar, sabor piche. Pensar que um dia a Líbia será uma nação democrática, a exemplo da América do Norte, é no mínimo uma falácia. O apoio norte-americano aos grupos fundamentalistas que derrubaram uma série de ditadores africanos revela-se, cada vez mais, um tiro pela culatra. A ampliação da Sharia, a lei fundamentalista islâmica, é uma realidade na maioria dos países onde ocorrem as insurreições.
Em nome da democracia, esta vetusta e esfarrapada senhora representada na Estátua da Liberdade e que leva uma surra de cacetes nos becos de Manhattan, os falcões norte-americanos encheram burras de dinheiro e levaram para o túmulo milhões de jovens heróis das guerras travadas ao longo dos últimos séculos. Patrocinaram golpes de Estado aqui na América Latina, assassinaram supostos ditadores nas republiquetas das bananas, impuseram seus cúmplices nos governos daquele areal onde jorra o petróleo, outrora berço cultural da humanidade, e de forma silenciosa, manobram até os carrinhos de compras dos supermercados para que se consuma apenas o que eles determinam.
O desejo frustrado de mudanças, nas últimas eleições presidenciais dos EUA revela agora o seu preço. E o mundo observa, com uma lupa, os próximos passos daquele eleito com o slogan: “sim, nós podemos”. Obama não disse, até agora, ás vésperas de sua sucessão se pretende seguir no apoio ao 1% de Wall Street ou aos 99% restantes de seus eleitores. O suspense inexiste na realidade, mas é sugerido apenas para evitar a comoção pública e a revolta generalizada que se avisinha na terra de Tio Sam. Todos intuem, de uma forma ou de outra, quem sairá vitorioso desse atormentado embate. Quem será?

Sergio Nogueira Lopes é Sociólogo e Escritor,
autor de O Mal Ronda o Mosteiro, entre outros
 

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Sérgio Nogueira Lopes é sociólogo, embaixador da Sociedade Pestalozzi do Brasil e escritor, autor de O Mal Ronda o Mosteiro, entre outros livros
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Itamar: um brasileiro a ser homenageado ainda durante gerações

A homenagem prestada ao ex-presidente Itamar Franco, por seu falecimento, confirma a certeza de que a História grava para a posteridade a face verdadeira dos homens públicos. Coube ao vice- presidente a cadeira de comandante- em-chefe do país, após a renúncia do presidente Fernando Collor, em um daqueles golpes que o destino reserva para quem está presente no lugar certo e na hora certa. Itamar era mestre na arte da política e confirma o tino apurado dos mineiros, nos séculos que se seguiram desde o descobrimento. São certos momentos na vida da nação nos quais os habitantes das Gerais se fazem presentes e se tornam marcas indeléveis do tempo em que vivemos. Itamar simboliza, assim, as lições descortinadas nas serras e morros que traduzem o Brasil autêntico, em sua gente mais cautelosa e ainda assim ousada, conservadora e simultaneamente revolucionária. Mineiro conversa sem elevar o tom, mas fala com a firmeza do ouro, dos diamantes e do aço que brotam de suas veias. Ainda que registrado na Bahia, Itamar é nascido em Juiz de Fora, Zona da Mata, e ratificou ser mineiro mesmo após ter deixado por aqui suas cinzas, ao lembrar que dinheiro público precisa ser respeitado com a reverência de um velório. Deixou claro à família que dispensava as idas e vindas de seus restos a Brasília. O máximo a ser gasto do fruto do suor do rosto de trabalhadores para se desfazer do carbono desencarnado, seria um vôo até Belo Horizonte, com uma parada na sua cidade natal, para as despedidas dos amigos. Esses sim, ele reverenciou com o respeito ao erário e à moralidade pública. Com seu gesto, relembrou aos brasileiros do Rio, São Paulo, Bahia e mais esse mundão de meu Deus, a lição de moral que assinou ao decretar o Plano Real e acabar com a farra da inflação alucinada na qual o país se dissolvia. Ficou chateado, e quem não ficaria, ao ser retratado pela imprensa conservadora, paulistana e carioca, como o capiau de topete alto e gosto duvidoso para certas companhias, ao invés de ser homenageado por sua determinação em construir um país honrado, sério e probo. A serenidade mineira, no entanto, impediu-lhe de protestar contra os detratores, ao mesmo tempo que fortalecia os laços com os conterrâneos que o elegeram para o derradeiro mandato, na Casa Alta do Congresso. Itamar ingressa na posteridade com uma biografia que deverá inspirar futuros historiadores a desvendar um exemplo de homem público, capaz de manter uma sintonia finíssima com a sua gente e pontuar, nas tramas das fiandeiras divinas, a presença nos instantes mais graves da vida nacional. Trata-se do fazer política de uma forma que os mineiros, e somente os mineiros, estão acostumados. É impossível decifrá-la na primeira leitura. Da mesma forma, serão necessárias décadas ainda até o pleno reconhecimento do filho que retorna ao pó, com a missão de inspirar os futuros brasileiros a amar o Brasil acima da própria vida. Como Juscelino e José Alencar, para ficar apenas na República moderna, Itamar agora descansa no panteão das Minas Gerais que mostraram ao Brasil, com a simplicidade dos gestos e o carinho pela democracia, que a pátria se constrói com a coragem de quem ousa ser correto ao extremo, sem perder a ternura, jamais.

Sergio Nogueira Lopes é Embaixador da
Sociedade Pestalozzi do Brasil, Sociólogo
 e Escritor. Autor do livro “Opinião Giratória” entre outros.
E-mail: embaixadorsnl@ig.com.br
 

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Quinze Minutos de Fama

Há pouco mais de três décadas, nos idos dos anos 80, em pleno desenvolvimento da economia mundial, com o fortalecimento da classe média norte-americana e, por tabela, a do Brasil idem, ainda que bem menos do que a aquela traduzida nas crianças coradas do Maine e nas famílias loirinhas do Kansas, um expoente da contracultura já mostrava a realidade do porvir. Sim, pois aos loucos, artistas e profetas cabe o dom de antever o curso da humanidade, muitos anos além no calendário gregoriano.
Os hippies de então, ao som cáustico do The Doors, renderam homenagens ao pintor performático e filósofo Andy Warhol, expoente da arte pop e de um estilo único, capaz de incluí-lo naquela rara categoria dos anjos desgarrados, de cabelos brancos e revoltos, que trazem ao mundo as suas trombetas. No caso, eram as latinhas de sopa Campbell e as vaquinhas malhadas.
Gênio, ele anteviu, em meio à névoa da ignorância tecnológica, um mundo no qual a mídia seria o totem no qual a sociedade instalaria o olho que tudo vê. E, diante do inevitável planeta globalizado, Warhol profetizou que cada ser humano, do presidente dos EUA ao lixeiro de um subúrbio de Bangladesh, todos teriam assegurado o direito de aparecer para o mundo e ter acesso aos seus 15 minutos de fama.
A previsão cataclísmica foi uma excitação só, na época, e até hoje. Caiu como água para o deserto. No Ocidente industrializado, com a propaganda em alta e o sistema econômico musculoso da Wall Street exibindo-se à periferia tupiniquim, da Avenida Paulista ao Leblon não faltava um paspalho que não construísse, como constroem até hoje, um circo no qual sonham com o trapézio, mas, se preciso, usam um nariz vermelho para o deleite do respeitável  público.
Nos segundos contados, sob os holofotes da mídia, a chance de ser famoso é um estado de espírito que inebria e seduz as mentes mais vazias. De sua parte, a mídia, veículo do glamour como a agulha na veia dos drogados, multiplicaram-se de forma desmedida até que o trapezista e o palhaço já não faziam sucesso por eles mesmo. Como na velha Roma, mesmo o mais sangrento dos combates na arena já não empolgava mais o Coliseu.
Assim, ao invés de privilegiar a educação, os meios de comunicação renderam-se ao espetáculo. Seja este um dos clássicos que, há séculos, cumprem seu destino de chacoalhar a alma humana, aplaudamo-lo. Mas não. Trata-se do rasteiro, vil e desqualificado espalhafato aquele que mais agrada ao gosto da boca amarga e desdentada da turba ignara. Funciona assim.
Com o Febeapá (Festival de Besteiras de Assola o País, percebido pelo sempre genial Stanislaw Ponte Preta) instalado nas plagas brasileiras, aumentou muito a demanda, de dimensões continentais, pela banalidade. Soube que o maior exemplo da previsão warholesca, e me perdoem o neologismo, esse programa que reúne um monte de gente dentro de uma casa, fechados como gado na engorda, anda em baixa junto à audiência. Boa notícia, mas é inevitável a saturação do grau de idiotice das notícias fúteis e as informações banais que nos assaltam diariamente.
Nesse caldo de cultura, a porção venenosa que restava no fundo das latas de uma sopa genial aparece na massificação que transforma, em instantes, como num passe de mágica, quase que por encanto, próceres da nação que ora desponta no panorama mundial em parias de um Brasil medíocre, invejoso, mesquinho. Ninguém escapa dessa rede social, de ídolos da bola, a galãs do cinema ou TV. Mesmo pessoas respeitáveis e admiradas, ao longo dos anos, em questão de segundos são expostas à nódoa que transforma os 15 minutos de fama em uma existência de difamação.
O exemplo mais republicano é o do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antes bajulado, logo após descer a rampa do Planalto, é exposto à ira da mídia por uns poucos minutos de descanso, em um quartel qualquer no litoral paulista. Mesmo autoridades, dedicadas ao bem-estar social, são alvo de denúncias vazias, em cartas anônimas, que se transformam em um pesadelo até que a verdade venha à tona.
Na velocidade dos fatos, ainda que distante da época em que vicejou o artista norte-americano, não é difícil se antever que teremos todos, democraticamente, os tais 15 minutos, mas de difamação. Afinal, foi outro gênio, desta vez na música brasileira, já havia percebido que, “no Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. A bênção, Tom Jobim.

Sergio Nogueira Lopes Sociólogo e escritor.
Autor do livro “Opinião Giratória”, entre outros.
 

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