Região dos Lagos e Norte Fluminense

Quarta-feira , 08 de Sep 2010

Atualizado em 04/09/2010 00:00:00

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Autoestima

Um brilhante economista em sua coluna num jornal carioca chama de “complexo de vira-lata”. Justíssimo, os brasileiros são naturalmente modestos e não se vangloriam das conquistas de seu país como outros povos. Realmente, em tempos passados, talvez não tivéssemos muito que nos vangloriar, a não ser o maior exportador de café do mundo. O resto era a natureza, a floresta Amazônia e seu caudaloso rio, a beleza do Rio de Janeiro as praias de areias brancas. No princípio do século passado ficou famoso o livro de Affonso Celso
Por que me ufano do meu país.  E o “ufanismo” era criticado.
Mas hoje é diferente, realmente o “ufanismo” tem seu lugar, um competente lugar. Trabalho do povo, criação do povo, não recebido de graça pela natureza. Temos nosso lugar no mundo bem marcado, com cadeira cativa. Já há muito tempo deixamos de ser somente o grande exportador da café. Estamos em todas as esferas, a política, a econômica, a esportiva, a artística, a musical  e a literária.
Não sei quem batizou a única praça no centro de Armação dos Búzios com o nome do nosso maior inventor, Alberto Santos-Dumont. Fico feliz em morar numa cidade que tem seu principal logradouro publico em homenagem ao grande mineiro. Santos-Dumont foi uma personalidade realmente excepcional digna de ser mais valorizada e exemplo aos nossos estudantes. Desde pequeno, aos 12 anos já virara maquinista da pequena locomotiva a vapor que puxava os vagões na fazenda de café de seu pai. Seu interesse pela mecânica foi determinante para ser o primeiro homem a voar nos céus da Europa, competindo e ganhando de dezenas de europeus. Dedicação e trabalho e ainda a preocupação com os pobres e colaboradores,o prêmio conquistado por levar seu dirigível n° 6 a contornar a Torre Eiffel foi distribuído, metade entre seus mecânicos e operários, metade doada aos pobres de Paris.
Teve recursos financeiros suficientes para suas pesquisas com balões, dirigíveis e finalmente com o avião, o mais pesado que o ar. Com 18 anos ganhou de seu pai, em visita à França, um automóvel, de dois únicos fabricados pelo francês Peugeot, isso em 1891.
A vida de Santos-Dumont foi pouco esmiuçada até pouco tempo, apesar de vários livros e estudos de autores brasileiros. Um dos enigmas era sua saúde. O ex-Ministro de transportes inglês Peter Wykeham, em seu admirável livro Santos-Dumont: a study in obsession, creio foi o primeiro a estudar a doença que acompanhou Santos-Dumont durante toda sua vida, que não era conhecida, nem poderia ter sido diagnosticada em seu tempo de vida.  O livro não foi editado no Brasil, mas existe uma tradução francesa. Também, não há tradução brasileira do livro da americana Nancy Winters com o título de The Story of Alberto Santos-Dumont, Master of Balloon.  Felizmente, o mais completo estudo sobre Santos-Dumont é do americano, Paul Hoffman, Wings of Madness: Alberto Santos-Dumont and the invention of Flight, publicado no Brasil com o título de Asas da Loucura, A extraordinário vida de Santos-Dumont, com 369 páginas e muitas fotografias. Paul Hoffman, ex-presidente da Enciclopédica Britânica, realizou uma intensa pesquisa para apresentar um trabalho completo, não só sobre a personalidade e contribuição do inventor para a aviação, mas também sobre o “ambiente aeronáutico” da época na Europa e nos Estados-Unidos.
Pouco interessa a pretensão americana de que foram os irmãos Wright os primeiros a fazer levantar do solo um aparelho mais pesado que o ar. Sim, foi antes de Santos-Dumont, mas escondidos, em segredo e utilizando uma catapulta. O “14-bis” de Santos-Dumont levantou vôo sem outra ajuda que seu próprio motor. O curto vôo, presenciado por centenas de pessoas, foi público e cronometrado. Santos-Dumont recebeu aclamação de toda a Europa, conquistou o prêmio prometido. Mais tarde seu avião “Demoiselle” foi copiado e produzido em vários países e até nos Estados-Unidos. Era um altruísta, queria o progresso. Nunca pensou em ganhar dinheiro com suas invenções. Homens assim são raros, muito raros.
 

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Nossa rua, nossa casa

Nossos avós saiam de casa para pegar o bonde, cumprimentavam um ou outro vizinho que encontrassem na rua, ou simplesmente com a mão direita levantavam ligeiramente o chapéu da cabeça como saudação. As pessoas em geral se conheciam e mesmo havia o antigo hábito, talvez herdado da Europa, do novo morador visitar os vizinhos, da esquerda e da direita e da casa em frente. Esses contatos também serviam para as fofocas inerentes a relações humanas. Sabiam a profissão dos vizinhos e onde trabalhavam.
Hoje saímos de casa, caminhamos até a esquina para pegar a van, ou abrimos o portão com o controle remoto para por o carro na rua, sem olhar as casas vizinhas, nem as pessoas na rua. Não sabemos muitas vezes quem mora ao lado. A segurança da casa é garantida pelo alarme, pela câmera, pagos a uma ‘empresa de segurança’. Nossa observação do que ocorre na rua, pouco importa. Temos outras preocupações.
Nossos avós sabiam o que ocorria na cidade, no país e no mundo pelo jornal da manhã, pela edição do meio dia e finalmente pelo jornal da tarde, vendido nas ruas por garotos, pelos chamados ‘pequenos jornaleiros’ (que receberam de D. Darcy Vargas a ‘Casa do Pequeno Jornaleiro’, isso no tempo de Getulio Vargas). Jornal era importante, três edições. Ao chegar em casa os nosso avós ligavam o rádio para ouvir notícias (Repórter Esso),  música e anúncios. A novela veio depois.
Hoje recebemos informação aos montões, um sem número de canais na TV, temos o radio de pilha, o celular, a internet (com jornais de todo o mundo e em tudo que seja língua falado por gente) e tudo mais. A informação direta, coletada na fonte, passou para segundo plano, não temos tempo de olhar a rua para correr em chegar em casa e  ligar a TV: a novela vai começar, não se pode perder. Nossos avós não tinham nada disso, mas recebiam o vizinho  para tomar uma xícara de café, rolar um bate-papo e estar a par das notícias locais.
Búzios, felizmente, não tem prédios de apartamentos, é uma cidade plana, horizontal. Mas ao sairmos de casa deveríamos observar com atenção a nossa rua e as seguintes, observar se houve alguma mudança, notar algo de diferente. Por perto na mesma rua ou numa próxima pode existir ponto de venda de drogas, um morador armazenar fogos de artifício em quantidade perigosa ou mesmo observar um morador que receba visitas incomuns. Não podemos policiar nosso bairro, isso cabe mesmo aos PMs e para isso pagamos impostos, mas a observação diária do comportamento dos vizinhos (não se trata de fofocar), pode ser um pequeno elemento que concorra de certa maneira para a nossa própria segurança.
Não sou técnico no assunto, são simplesmente idéias gerais que me ocorrem.
Morei na Alemanha, em Berlim, num bairro calmo, em que à noite poucos carros ficavam estacionados na minha rua. Certa vez às 4 da manhã tocam a campainha. Vejo dois policias. Abro a porta e me perguntam se tudo estava em ordem. Estranhei a visita àquela hora e respondi que sim, tudo estava bem. Mas estava curioso do motivo da visita da Polizei àquela hora. Responderam-me que haviam estranhado meu carro, um Peugeot 604, estar estacionado na rua e não guardado na garagem, como era habitual. Agradeci a atenção e expliquei que havia chegado tarde em casa, cansado (não quis dizer preguiça) e preferi deixar o carro na rua por ser bem tranquila. Fiquei assim sabendo que a policia controlava minha casa. Excelente!
 

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Sinfonia inacabada

O Brasil nos dias de hoje já dá palpite em todos os problemas mundiais, no problema do Oriente Médio, na península coreana (já temos uma Embaixada em Pyongyang, capital da Coréia do Norte), problema nuclear, na política dos países andinos, e, faltando poucos meses para fim de seu mandato o Presidente Lula vira manchete internacional com a oferta de oferecer asilo à iraniana Sakoneh Ashtiani, sentenciada à morte por adultério e seria morta por apedrejamento,  mas passado a enforcamento. O Irã é acusado por vários lados de ser o país maldito, a tragédia da iraniana comove o mundo.
A oferta de Lula foi comentada pela imprensa internacional. Leitores dos jornais a criticaram ou elogiaram. Curiosa a carta de um norte-americano ao semanário inglês The Economist, que aqui traduzo: ‘Assim, se pode afirmar que o Irã é um país desumano por condenar uma mulher a ser apedrejada enquanto nós aqui nos Estados Unidos somos OK quando sentenciamos acusados à morte por esquadrão de fuzilamento, cadeira elétrica e injeção letal? Aqui também menores e retardados mentais são condenados à morte.  Os Estados Unidos são tão desumanos e cegos pela religião como o Irã. – Socorro. Lula, ajude-nos!’
A pena de morte foi abolida na quase totalidade  dos países, ou deixou de ser aplicada, China e Estados Unidos constituem exceção. A constituição brasileira dispõe sobre a pena de morte unicamente em tempos de guerra. Assim, não somos tão bonzinhos, pois a grande maioria dos países repele a pena de morte mesmo em caso de guerra. Apesar de ‘não matarás’ ser um ícone em todas as religiões do mundo, isso se aplica ao indivíduo somente, mas uma vez que seja considerado um ataque à própria sociedade a pena de morte, teoricamente ditada somente depois de um consenso, de um julgamento, seja civil ou tribunal religioso, é legal. Somente o Budismo é taxativo: não se pode tirar a vida de qualquer ser vivente, mesmo de uma mosca, ela e o mosquito têm o direito de morrer por velhice.  As religiões, em geral, aceitam a pena de morte, como a igreja católica, a ortodoxa, certas igrejas protestantes, a judia e o islamismo. Em países como Líbano, Israel e outros, não há lei civil e as relações são reguladas por tribunais religiosos, conforme a religião das partes.
A religião exerceu uma função determinante na sociedade humana durante toda a história. Centenas de milhares bruxos e bruxas foram queimados em fogueiras, outros tantos foram pendurados em forcas, crucificados, mortos na ‘roda’ por negarem ou não aceitarem  o Deus imposto pela autoridade. Um médico francês inventou a guilhotina para tornar a morte menos sofrida. Durante todos os séculos nada ou pouco mudou. Se pudesse haver um equilíbrio e  compreensão entre as religiões, a sociedade humana poderia desenvolver-se com menos problemas e mais paz.
 

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Cores e merchandise

As camisas dos jogadores somente com as cores dos clubes, sem propaganda, é coisa do passado.  Talvez mesmo os garotos de hoje não tenham a mínima idéia que no tempo de seus pais e avós a camisa dos jogadores do Fluminense, era mesmo tricolor, três cores, nenhum anúncio.  Assim eram as camisas de todos os clubes, fáceis de identificar, a do Vasco preta, com a cruz de malta vermelha, a do Flamengo, bicolor, a do Botafogo de listas pretas e assim por diante. Cada um se identificava com seu clube e tinha orgulho de exibir a camisa.
O mundo mudou, tudo virou negócio, subvenção e interesses comerciais. É verdade que antigamente também os jogadores de futebol não recebiam fortunas, nem ficavam ricos. Alguns jogadores de tempos antigos, hoje velhos, até têm dificuldades financeiras. Havia mais elegância, mais respeito, e nunca se poderia imaginar escândalos como os que atualmente rodam diariamente na TV.
Não falo só de futebol, a todos os esportes. Não sei se ainda no cricket dos  inglêses, aquele jogo sem sabor,  também o merchandise entrou. Mas em quase tudo a palavra de ordem é o merchandise. Tudo muito triste, deselegante, e sem ética. O macacão do nosso piloto de Fórmula 1, Felipe Massa, virou uma fantasia de tantos anúncios, uns grandes e outros menores e até os pequeninos. Nos carros de corrida também, a pintura é de uma qualidade excepcional, de primeiríssima, mas por cima são quadrados, losangos, com propaganda de companhia, bancos, cigarros  e produtos os mais variados.
Lembro-me do clássico Circuito da Gávea e do chamado Trampolim  do Diabo, onze quilômetros partindo, se não me engano, na Gávea, da Rua Marquês de São Vicente, subindo, depois ao alto, descendo o Trampolim do Diabo, Barra, Avenida Niemeyer e Canal do Leblon.  Hoje com a Rocinha totalmente ocupada  a “pista” desapareceu. Eram ali  as curvas famosas do “Tampolim do Diabo”. Os macacões dos pilotos eram brancos, normais, sem propaganda, como também não havia capacetes (ou gorros) com propaganda. Os carros pintados de uma única cor, conforme a nacionalidade da escuderia e do piloto, carro e piloto sempre do mesmo país. Amarelo era a cor dos carros de corrida brasileiros, como a de Irineu Correia, vermelho da Itália, branco da Alemanha, verde da Inglaterra e azul da França. O Auto-Union de Hans Stuck era branco, Pintacuda pilotava um vermelho.
Os fãs dos clubes hoje em dia exibem camisas pintadas de anúncios de laboratórios farmacêuticos, companhias de petróleo, bancos, planos de saúde e tudo mais. Tudo feio, sem classe. Na Copa não havia anúncios nas camisas, menos mal. Os interesses comerciais penetram em tudo, o dinheiro é que manda.
A triste cena de Felipe Massa recebendo pelo rádio ordem para deixar o espanhol Fernando Alonso ultrapassá-lo ou  Rubinho quase parando o monoposto vermelho para que o alemão Schumi recebesse a bandeirada, em 2002, não podia ocorrer nas corridas de antigamente. (A belíssima ultrapassagem do brasileiro sobre o alemão na corrida da Hungria mostrou a garra de Rubinho). Comunicação por rádio com o piloto não existia, rádio mesmo ficava só em cima de um móvel, na sala de jantar.
PS – Parabéns a Rubinho pela belíssima ultrapassagem sobre o alemão na corrida da Hungria.
 

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Grão de areia

Mensalão da guerra do Afeganistão
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Grão de areia - Timor Leste

Fica muito longe, lá do outro lado do planeta, o pequeno país (menor que Sergipe), ocupando parte de uma ilha, chamado oficialmente República Democrática do Timor Leste, em português, e na segunda língua oficial, ‘tétum’, tem o nome de Repúblika Democrátika Timor Lorosa’e. Como Timor Leste foi colônia portuguesa durante séculos e faz parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, temos a impressão de que o português é a língua corrente, falada pelo povo.
Não é bem assim, a língua falada por oitenta por cento (80%) da população de um milhão de habitantes é o ‘tétum’, oriunda do malaio, com semelhanças com o indonésio, mas incluindo muitas palavras portuguesas. O português mesmo é falado por uma minoria de ascendência lusitana e não chega a 5% da população. Jornais e TV também em tétum. Na constituição são consideradas ainda como ‘línguas de trabalho’ o inglês e o indonésio. Portugal e o Brasil enviam professores para Timor Leste num esforço de promoção da língua portuguesa e de sua cultura.
A história do pequeno país é curiosa. Como outros territórios na Ásia foi possessão portuguesa desde o século 15. Depois da II Guerra Mundial, por força do processo de descolonização, com o fim de colônias européias, a Indonésia, até então colônia holandesa, se tornou independente.  Assim, metade da ilha Timor, a parte holandesa passou ao novo país, mas Portugal manteve sua colônia na ilha com um ‘daqui não saio’. Foi levantado um clamor universal contra Portugal por querer manter suas colônias enquanto todos os outros países colonizados haviam adquirido a independência. A Indonésia em 1975 ocupa Timor Leste. Isso não agradava aos países ocidentais, encabeçados pelos Estados-Unidos, uma vez que a Indonésia era um país de maioria muçulmana e com boas relações com a China comunista.  Assim, a ocupação de Timor Leste pelo governo de Jacarta foi condenada pelas Nações Unidas e o país obteve a independência em 1999. Era importante que, assim, os Estados Unidos pudessem, se necessário fosse em caso de conflito mundial, dispor de uma conveniente base militar na região.
Por outro lado, como a capital Díli fica a 600 km de distância da cidade australiana Sidney, Timor Leste cai de maneira inequívoca na zona de influência australiana. Desde 2006, 750 soldados australianos e neozelandeses permanecem permanentemente no país a título de garantir a segurança. Companhias australianas obtiveram as concessões para a exploração do petróleo e do gás no litoral timorense. Os lucros auferidos são divididos  18% para Timor Leste e 82% para a Austrália.
A estrutura do idioma tétum é simples, semelhante à do malaio e do indonésio, embora inclua muitos vocábulos de origem portuguesa. É fácil aprender a falar tétum, assim como indonésia ou o malaio, enquanto o português é complicado e difícil. (Posso dar meu testemunho: já morei na Indonésia e conheço o idioma ‘bahasa indonésia’). O inglês leva a vantagem de ser universal, ser falado pela Austrália, o forte país vizinho que procura manter forte presença na economia e na política timorense. O português fica em desvantagem.
No ano passado chegou a Brasília o primeiro Embaixador de Timor-Leste, Domingos de Souza, renomado escritor timorense, que naturalmente escreve em português. Numa entrevista a um repórter brasileiro escapou um pequeno lamento: ‘Há uma camada mais jovem em meu país que só me leu em traduções inglesas’. Timor Leste poderá se tornar a ser um satélite australiano (se já não é) e o inglês ocupar o lugar de segundo idioma, depois do tétum.
 

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Grão de areia - Alfredo Rainho

O Vazamento (com V maiúscula)
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