Atualizado em 20/11/2010 00:00:00
‘Em 22 de novembro de 1910, um levante de marinheiros agitou o Rio de Janeiro. Liderados por João Cândido, cerca de 2 mil trabalhadores negros tomaram dois navios, apontaram seus canhões para a sede do governo e exigiram o fim dos castigos corporais. O protesto durou uma semana e surpreendeu a Marinha e a elite dominante, que foram obrigadas a ceder às exigências. A chibata – símbolo da escravidão, abolida 22 anos antes – foi proibida e os revoltosos foram anistiados. Aos gritos de ‘viva a liberdade’, os marinheiros negros comemoraram a vitória contra o racismo e a exploração. Um mês depois, porém, o presidente Hermes da Fonseca traiu os compromissos e partiu para a revanche. Ele ordenou a prisão de 18 líderes do movimento, entre eles João Cândido, o ‘Almirante Negro’, que foram detidos e torturados na Ilha das Cobras.’
(BORGES, Altamiro. Revolta da Chibata e o Retorno do Racismo. SP. 2010)
A anistia tardia de João Cândido somente se concretizou em 21 de julho de 2008 quando a lei de autoria da Senadora Marina Silva foi sancionada pelo Presidente Lula. No mesmo ano, outro resgate teria sido feito no dia 20 de Novembro quando inaugurada a estátua de João Cândido, na Praça XV, do Rio de Janeiro - uma justa homenagem ao nosso ‘Almirante Negro’. Até então, como na música de Aldir Blanc ‘as pedras pisadas do cais’ teriam sido seu único monumento.
As chibatas que marcaram aqueles marinheiros negros, que por sua vez, segundo narrou a história, teriam se revoltado e se emancipado daquela violência física, foram abolidas em fins do Império. Entretanto, sabe-se: ninguém se importou com aqueles pobres negros sem patentes nas hierarquias da Marinha Brasileira, a não ser eles, os negros alforriados.
Quando o acontecimento revoltoso completou um século a revolta ainda era motivo de perplexidade. Sim. Não por ‘apenas’ ter sido um ‘espetáculo encendao’ nos ‘bastidores’ das forças armadas da Marinha Brasileira, que, ao invés de zelar pelo cumprimento da lei e da ordem, teria violado dia e noite a abolição dos castigos físicos, mas por ter sido este mais um capítulo na história do Brasil cuja raíz teve seu alicerce erguido em bases de contradições sócio-culturais, de modo que toda esta notável desumanidade desconsiderou aqueles que dedicaram à Marinha Brasileira suas vidas, honras e glórias em prol da luta patriótica.
Como ser um Estado-Nação de mentalidade desenvolvimentista à
luz de idéias que parecem sempre estar fora do lugar? Idéias essas tendenciando sempre à modernização tardia sem base popular. O governante que descumpre uma lei de anistia, não pode desenvolver o seu Estado.
Hoje, nosso país é repleto de revoltas internass, haja vistas a perifeiras urbanas; nossas guerras são violências do dia a dia que na cotidianeidade somos reféns e meros expectadores, a vivenciamos nos telejornais, ou tal como o empregador que não se envergonha de explorar com a mais-valia o trabalhador, ou aquele que trapaceia e trai o companheiro de luta, de vida, para lhe ocupar o cargo, o emprego ou o espaço social, ou de melhores direitos que insistem em não nos conceder; ou da falta de acessibilidade aos bens comuns, ou do livro didático que deprecia o idoso, chamando-o de velho, ou que depreciam o negro abusando do uso de estereótipos e características físicas folclorizadas.
Tudo isto parece um bom motivo para uma espécie de revolta interna. Até mesmo aquele programa humorístico extremamente inteligente parecia sugerir ser ‘a vida dos outros’ uma atmosfera muito mais interessante do que a nossa própria vida. São curiosos os eventos que depreciam o outro, que agora não somente a categoria negro, mas a categoria cristalizada na figura do homem pobre que por ser mal sucedido mostra suas fraquezas, vaidades e vícios.
O momento é delicado no cenário dos movimentos sociais, em que se almeja melhores entendimentos entre aqueles que pleiteiam relações pautadas em principios éticos, e aqules que não pleiteiam nada cujo comportamento no que tange o Debate da Igualdade Racial nos impedem de agir, por não estarmos no poder para fazer a roda girar.
As chibatas antigas foram aposentadas, hoje as chibatas são peças de museus. Mas, o sangue que sangra das chibatas modernas, transformada pela mídia globalizada do capitalismo implacável que explora o terceiro mundo, assume formas requintadas de facetas sultis, porém, violentas em suas manipulações, simulações e articulações.
Temos motivos para crer que já não podemos nos valer das antigas fórmulas de denuncia ao racismo. Nossa alma é negra, mas nossa pele é branca, entretanto, somos multiétnicos, interreligiosos, multiculturais e multinaturais.
Que possamos dar um basta nesta farsa, sem revolta e sem chibata, na luta por direitos de todos e todas.
Axé!
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