Região dos Lagos e Norte Fluminense

Jornal primeira hora Jornal primeira hora
Sexta-feira , 18 de May 2012
  • Gato por lebre

    Na recente polêmica sobre o índice de aprovação do governo Mirinho provocada pela pesquisa do instituto Iguape me chamou a atenção a justificativa dada pelo governo para confirmar tal aprovação. Em entrevista recente a um jornal da Cidade nosso prefeito apresenta algumas razões. Diz ele que seu governo está adotando ações em diversas áreas, como limpeza, urbanização, saúde e educação, que a população tem aprovado. Essas ações, em sua maioria, não passam de reformas, nos fazendo lembrar o governo anterior. Sem recursos para fazer novas obras porque comprometeu quase 50% do orçamento com a folha de pagamento, só sobra dinheiro para pequenas reformas. É reforma do píer do centro, reforma de escolas, reforma do hospital, reforma (asfaltamento) da estrada da usina. O que é triste é ver nosso prefeito citar essas reformas como justificativa de sua aprovação em uma pesquisa. Parece que se comprou gato por lebre. Fora isso, de novo mesmo, só o decreto da Azeda-Azedinha. Quanto a este ponto parece que todos concordamos (exceto, claro, os especuladores imobiliários): o decreto, com certeza, tem a aprovação da maioria da população buziana.

    Também é triste ver nosso prefeito ser municiado com dados errados. Ao falar do enxugamento da máquina pública, nosso prefeito diz que diminuiu os cargos de confiança de 760 para aproximadamente 300. Há muito tempo que os cargos de confiança já passam de 400 e se aproximam de 450. Claro que o prefeito não precisa saber o número exato, mas o departamento de comunicação...Aí vira propaganda e não comunicação.Vale lembrar, que no boletim oficial nº 393 (26/06/09) saíram os atos (secretos?) de contratação de funcionários. Saiu a lista de janeiro até agora. O departamento de comunicação pode não ter contado mas eu contei. São 688 funcionários. É aqui que está o nó da questão da desaprovação. O governo não tem recursos para fazer nada porque a folha de pagamento está inchada. Não estava para um orçamento de 135 milhões, mas está para um orçamento de 92 milhões de reais. E nisso fica muito parecido com o governo anterior. Temos um governo amarrado pelo empreguismo, pelo fisiologismo dos aliados e da base de sustentação da câmara. É por isso que o seu chefe de gabinete torce pelo aumento dos recursos dos royalties. Permitiria uma volta à situação anterior sem mexer em nada. Por que não fazer um novo enxugamento no quadro de comissionados e até mesmo reduzindo os seus salários? Municípios da região foram obrigados a fazer isso para poderem ter alguma mobilidade em termos de investimento. Para os próximos seis meses o prefeito enumera uma série de ações (nenhuma obra nova) que a seu ver irão aumentar a aprovação ao seu governo numa próxima pesquisa. São elas: melhoria na Educação e na Saúde, investimento no Turismo e criação do Portal da Transparência.

    Na questão da Educação o prefeito afirma que temos que fazer com que Búzios volte a ter uma Educação de qualidade. Nesta questão o prefeito vai me desculpar mas discordo radicalmente dele, porque a meu ver Búzios nunca teve educação de qualidade. Falo isso com base nos critérios do MEC que considera como um município com educação de qualidade aquele que consegue IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) igual ou superior a 6,0. Búzios teve em 2007 IDEB 4,2 nos anos iniciais do ensino fundamental e 3,6 nos anos finais. Em 2005, era pior: 3,9 e 3,1 respectivamente. Estes últimos índices podem ser considerados como os índices alcançados pela educação do governo anterior de Mirinho.

     

    Existe um compromisso da secretaria de Educação de Búzios com o MEC para se atingir o índice de 6,1 em 2021.

    Ou seja, se trabalharmos direitinho, talvez venhamos

    a ter Educação de qualidade em 2021

    Ajudaria, e muito, a se alcançar este índice se fosse implantado em Búzios o ensino em horário integral, promessa de campanha do atual prefeito. Mas a atual Secretária de Educação disse em depoimento na Câmara, talvez ciente da falta de recursos, que isso só será feito em 2010 e, mesmo assim, em uma única escola como experiência. Também contribuiria para esse objetivo se a prefeitura se responsabilizasse pelo transporte escolar. Como disse uma grande educadora de Búzios, educação de qualidade exige ônibus escolares público. Para isso se precisa de recursos. Mas como os comissionados são imexíveis... nossas crianças terão que esperar.

    Quanto ao Turismo o prefeito diz: temos que trazer de volta o turismo de qualidade, fazer com que a cidade volte a produzir renda e emprego. Parece que ele acredita que o turismo de qualidade possa ser a única atividade sustentável de Búzios e que seja capaz de gerar emprego e renda para todos. Diferentemente dele, o Plano Diretor fala em criação de uma nova matriz econômica na Cidade com atividades sustentáveis do ponto de vista ambiental. Em toda a Região, menos em Búzios, se buscam alternativas econômicas para quando os royalties do petróleo acabar. Em Rio das Ostras foi criada a ZEN – Zona Especial de Negócios, atraindo muitas empresas para o município. São Pedro da Aldeia tem o Pólo de Distribuição. Araruama criou o projeto Minha Casa, Meu Trabalho. Macaé tem o projeto Beleza saído da Incubadora de Empresas. Cabo Frio que já tem o pólo têxtil (moda praia) está discutindo a criação de um Condomínio Industrial. Precisamos pensar em uma atividade industrial que tenha o nosso perfil. Quem sabe um pólo cinematográfico?

    Ainda na questão do turismo, de onde o prefeito tirou a informação de que antes da emancipação Búzios estava em 32º lugar no ranking de cidades brasileiras que mais recebem turistas estrangeiros? Esta afirmação foi feita no Fórum Estadual de Turismo que reuniu secretários municipais de turismo em Búzios. Mais uma vez estão lhe municiando com informações erradas, talvez para se valorizarem.

     

    Está no site da Embratur que em 1994 Búzios ocupava a 10ª posição. Em 1995 e 1996, a 11ª. Parece que a emancipação não mudou quase nada na questão do Turismo

    Quanto à questão do desemprego é preciso que se faça um diagnóstico urgente em Búzios (ONG Ativa Búzios, JPH, 1/4/09). Búzios tem quantos trabalhadores? Quantos têm carteira assinada? Quantos são os trabalhadores informais? Quantos são os desempregados? Qual é a saída para amenizar o quadro? E, afinal, quem está fazendo alguma coisa para isso? Recentemente foi realizado um debate sobre o desemprego em Cabo Frio dentro do projeto Cidade Viva. Por que não fazermos também um amplo debate em Búzios? A geração de emprego e renda poderia melhorar, e muito, os índices de aprovação do governo.

    Finalmente a questão da criação do Portal da Transparência. Segundo o prefeito o portal irá trazer uma série de informações da administração financeira do município, como o fluxo de caixa da secretaria de Fazenda, entre outras. Por que não disponibilizar também, em tempo real, informações pormenorizadas sobre a execução orçamentária e financeira da prefeitura? Por que não se publicar no portal os contratos e os gastos com os terceirizados, a relação das despesas e os respectivos empenhos? Por que não se publicar a relação dos bens dos agentes políticos no ingresso, e na saída do cargo?

    18-07-2009 00:00:00

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  • Gato por lebre

    Na recente polêmica sobre o índice de aprovação do governo Mirinho provocada pela pesquisa do instituto Iguape me chamou a atenção a justificativa dada pelo governo para confirmar tal aprovação. Em entrevista recente a um jornal da Cidade nosso prefeito apresenta algumas razões. Diz ele que seu governo está adotando ações em diversas áreas, como limpeza, urbanização, saúde e educação, que a população tem aprovado. Essas ações, em sua maioria, não passam de reformas, nos fazendo lembrar o governo anterior. Sem recursos para fazer novas obras porque comprometeu quase 50% do orçamento com a folha de pagamento, só sobra dinheiro para pequenas reformas. É reforma do píer do centro, reforma de escolas, reforma do hospital, reforma (asfaltamento) da estrada da usina. O que é triste é ver nosso prefeito citar essas reformas como justificativa de sua aprovação em uma pesquisa. Parece que se comprou gato por lebre. Fora isso, de novo mesmo, só o decreto da Azeda-Azedinha. Quanto a este ponto parece que todos concordamos (exceto, claro, os especuladores imobiliários): o decreto, com certeza, tem a aprovação da maioria da população buziana.

    Também é triste ver nosso prefeito ser municiado com dados errados. Ao falar do enxugamento da máquina pública, nosso prefeito diz que diminuiu os cargos de confiança de 760 para aproximadamente 300. Há muito tempo que os cargos de confiança já passam de 400 e se aproximam de 450. Claro que o prefeito não precisa saber o número exato, mas o departamento de comunicação...Aí vira propaganda e não comunicação.Vale lembrar, que no boletim oficial nº 393 (26/06/09) saíram os atos (secretos?) de contratação de funcionários. Saiu a lista de janeiro até agora. O departamento de comunicação pode não ter contado mas eu contei. São 688 funcionários. É aqui que está o nó da questão da desaprovação. O governo não tem recursos para fazer nada porque a folha de pagamento está inchada. Não estava para um orçamento de 135 milhões, mas está para um orçamento de 92 milhões de reais. E nisso fica muito parecido com o governo anterior. Temos um governo amarrado pelo empreguismo, pelo fisiologismo dos aliados e da base de sustentação da câmara. É por isso que o seu chefe de gabinete torce pelo aumento dos recursos dos royalties. Permitiria uma volta à situação anterior sem mexer em nada. Por que não fazer um novo enxugamento no quadro de comissionados e até mesmo reduzindo os seus salários? Municípios da região foram obrigados a fazer isso para poderem ter alguma mobilidade em termos de investimento. Para os próximos seis meses o prefeito enumera uma série de ações (nenhuma obra nova) que a seu ver irão aumentar a aprovação ao seu governo numa próxima pesquisa. São elas: melhoria na Educação e na Saúde, investimento no Turismo e criação do Portal da Transparência.

    Na questão da Educação o prefeito afirma que temos que fazer com que Búzios volte a ter uma Educação de qualidade. Nesta questão o prefeito vai me desculpar mas discordo radicalmente dele, porque a meu ver Búzios nunca teve educação de qualidade. Falo isso com base nos critérios do MEC que considera como um município com educação de qualidade aquele que consegue IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) igual ou superior a 6,0. Búzios teve em 2007 IDEB 4,2 nos anos iniciais do ensino fundamental e 3,6 nos anos finais. Em 2005, era pior: 3,9 e 3,1 respectivamente. Estes últimos índices podem ser considerados como os índices alcançados pela educação do governo anterior de Mirinho.

     

    Existe um compromisso da secretaria de Educação de Búzios com o MEC para se atingir o índice de 6,1 em 2021.

    Ou seja, se trabalharmos direitinho, talvez venhamos

    a ter Educação de qualidade em 2021

    Ajudaria, e muito, a se alcançar este índice se fosse implantado em Búzios o ensino em horário integral, promessa de campanha do atual prefeito. Mas a atual Secretária de Educação disse em depoimento na Câmara, talvez ciente da falta de recursos, que isso só será feito em 2010 e, mesmo assim, em uma única escola como experiência. Também contribuiria para esse objetivo se a prefeitura se responsabilizasse pelo transporte escolar. Como disse uma grande educadora de Búzios, educação de qualidade exige ônibus escolares público. Para isso se precisa de recursos. Mas como os comissionados são imexíveis... nossas crianças terão que esperar.

    Quanto ao Turismo o prefeito diz: temos que trazer de volta o turismo de qualidade, fazer com que a cidade volte a produzir renda e emprego. Parece que ele acredita que o turismo de qualidade possa ser a única atividade sustentável de Búzios e que seja capaz de gerar emprego e renda para todos. Diferentemente dele, o Plano Diretor fala em criação de uma nova matriz econômica na Cidade com atividades sustentáveis do ponto de vista ambiental. Em toda a Região, menos em Búzios, se buscam alternativas econômicas para quando os royalties do petróleo acabar. Em Rio das Ostras foi criada a ZEN – Zona Especial de Negócios, atraindo muitas empresas para o município. São Pedro da Aldeia tem o Pólo de Distribuição. Araruama criou o projeto Minha Casa, Meu Trabalho. Macaé tem o projeto Beleza saído da Incubadora de Empresas. Cabo Frio que já tem o pólo têxtil (moda praia) está discutindo a criação de um Condomínio Industrial. Precisamos pensar em uma atividade industrial que tenha o nosso perfil. Quem sabe um pólo cinematográfico?

    Ainda na questão do turismo, de onde o prefeito tirou a informação de que antes da emancipação Búzios estava em 32º lugar no ranking de cidades brasileiras que mais recebem turistas estrangeiros? Esta afirmação foi feita no Fórum Estadual de Turismo que reuniu secretários municipais de turismo em Búzios. Mais uma vez estão lhe municiando com informações erradas, talvez para se valorizarem.

     

    Está no site da Embratur que em 1994 Búzios ocupava a 10ª posição. Em 1995 e 1996, a 11ª. Parece que a emancipação não mudou quase nada na questão do Turismo

    Quanto à questão do desemprego é preciso que se faça um diagnóstico urgente em Búzios (ONG Ativa Búzios, JPH, 1/4/09). Búzios tem quantos trabalhadores? Quantos têm carteira assinada? Quantos são os trabalhadores informais? Quantos são os desempregados? Qual é a saída para amenizar o quadro? E, afinal, quem está fazendo alguma coisa para isso? Recentemente foi realizado um debate sobre o desemprego em Cabo Frio dentro do projeto Cidade Viva. Por que não fazermos também um amplo debate em Búzios? A geração de emprego e renda poderia melhorar, e muito, os índices de aprovação do governo.

    Finalmente a questão da criação do Portal da Transparência. Segundo o prefeito o portal irá trazer uma série de informações da administração financeira do município, como o fluxo de caixa da secretaria de Fazenda, entre outras. Por que não disponibilizar também, em tempo real, informações pormenorizadas sobre a execução orçamentária e financeira da prefeitura? Por que não se publicar no portal os contratos e os gastos com os terceirizados, a relação das despesas e os respectivos empenhos? Por que não se publicar a relação dos bens dos agentes políticos no ingresso, e na saída do cargo?

    18-07-2009 00:00:00

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  • Vexames do Senado

    As últimas revelações sobre os desmandos e as irregularidades do Senado da República geram, em qualquer cidadão de mediana consciência política, sentimentos de vária natureza: vergonha, raiva, desprezo, revolta, indignação. Vergonha, sim, embora não tenhamos nenhuma responsabilidade solidária com a patifaria, porque desejaríamos que as instituições nacionais nos honrassem perante o mundo, e que não ficássemos, os brasileiros, na triste condição de cidadãos de uma República de piratas. Raiva, também, porque assistimos, indefesos e inertes, à dilapidação dos recursos públicos e dos tributos que recolhemos ao erário. Desprezo maior pelos pais da pátria que alienam a própria honra em troca de miudezas eleitoreiras, ou que silenciaram, durante muito tempo, em face da evidência dos desmandos, do excesso de mordomias e de privilégios. Revolta e indignação, para não dizer mais, diante da gravidade das injustiças e atentados à ordem jurídica, que justificariam um recall coletivo, caso existisse tal instituto na Constituição brasileira. Pois, convenhamos, não há senador que se possa dizer inocente, diante do quadro de irregularidades que agora se desnudam. Haveria algum distraído que ignorasse o número espantoso de diretores? Haveria quem não soubesse dos assessores dispensados de frequência à Casa, dos mordomos em serviço domiciliar e privado, ou das casas funcionais postas a benefício de parentes? Os 663 atos secretos foram tão secretos assim, que não chegassem jamais ao ouvido dos atilados senadores?

    Em realidade, os vexames em que se afundou o Senado da República não surpreendem muito. A tolerância e o compadrismo com que foram tratados outros episódios de falta de decoro antecipavam a desmoralização em que agora mergulha a Casa.

    Há muito tempo que se reclamam reformas na estrutura daquela ala do Con-

    gresso, sobretudo pela estranhíssima presença de suplentes que se elegem na carona dos titulares, sem disputar eleições, e tão desconhecidos e secretos, que o próprio eleitorado não os identifica. Hão de fortalecer-se agora as sugestões do unicameralismo, que não se coaduna com a República federativa. Nunca se concebeu federação sem uma câmara territorial, onde as unidades federadas estejam igualmente representadas. Entretanto, sabemos que um centralismo crescente está destruindo o sonho da federação, e o país cada vez mais se assemelha a uma República unitária, sobretudo depois que os Estados perderam respeitabilidade, com a promoção precipitada de territórios federais a Estados supostamente autônomos. Rondônia, Acre, Amapá e Roraima, cujas populações, somadas, representam 1,76% do total do país, elegem 12 senadores em seu conjunto; São Paulo, com 22% da população brasileira, deve contentar-se com seus três. A despeito de todas as teorias a respeito das funções constitucionais do Senado, parece haver injustiça em forçar uma igualdade entre os gritantemente desiguais. Dentro desse quadro, não causaria muito espanto a solução unicameral, embora na Câmara dos Deputados também haja uma absurda distribuição das representações, desde que, aos pequenos Estados, com diminuta população, se assegura um mínimo de oito deputados. A regra, que veio do Direito Constitucional a toques de clarim, com o fito de assegurar maioria à falecida Arena, conseguiu sobreviver à Constituição cidadã de 1988, por obra de alguma misteriosa negociação política.

    Ninguém imaginaria agora um Senado tão respeitável quanto aquele que Machado de Assis descreveu numa crônica excelente, sob o título de O velho Senado. Mas desejaríamos pelo menos uma corporação que cultivasse a austeridade e não envergonhasse e indignasse os seus eleitores.

    17-07-2009 00:00:00

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  • Vexames do Senado

    As últimas revelações sobre os desmandos e as irregularidades do Senado da República geram, em qualquer cidadão de mediana consciência política, sentimentos de vária natureza: vergonha, raiva, desprezo, revolta, indignação. Vergonha, sim, embora não tenhamos nenhuma responsabilidade solidária com a patifaria, porque desejaríamos que as instituições nacionais nos honrassem perante o mundo, e que não ficássemos, os brasileiros, na triste condição de cidadãos de uma República de piratas. Raiva, também, porque assistimos, indefesos e inertes, à dilapidação dos recursos públicos e dos tributos que recolhemos ao erário. Desprezo maior pelos pais da pátria que alienam a própria honra em troca de miudezas eleitoreiras, ou que silenciaram, durante muito tempo, em face da evidência dos desmandos, do excesso de mordomias e de privilégios. Revolta e indignação, para não dizer mais, diante da gravidade das injustiças e atentados à ordem jurídica, que justificariam um recall coletivo, caso existisse tal instituto na Constituição brasileira. Pois, convenhamos, não há senador que se possa dizer inocente, diante do quadro de irregularidades que agora se desnudam. Haveria algum distraído que ignorasse o número espantoso de diretores? Haveria quem não soubesse dos assessores dispensados de frequência à Casa, dos mordomos em serviço domiciliar e privado, ou das casas funcionais postas a benefício de parentes? Os 663 atos secretos foram tão secretos assim, que não chegassem jamais ao ouvido dos atilados senadores?

    Em realidade, os vexames em que se afundou o Senado da República não surpreendem muito. A tolerância e o compadrismo com que foram tratados outros episódios de falta de decoro antecipavam a desmoralização em que agora mergulha a Casa.

    Há muito tempo que se reclamam reformas na estrutura daquela ala do Con-

    gresso, sobretudo pela estranhíssima presença de suplentes que se elegem na carona dos titulares, sem disputar eleições, e tão desconhecidos e secretos, que o próprio eleitorado não os identifica. Hão de fortalecer-se agora as sugestões do unicameralismo, que não se coaduna com a República federativa. Nunca se concebeu federação sem uma câmara territorial, onde as unidades federadas estejam igualmente representadas. Entretanto, sabemos que um centralismo crescente está destruindo o sonho da federação, e o país cada vez mais se assemelha a uma República unitária, sobretudo depois que os Estados perderam respeitabilidade, com a promoção precipitada de territórios federais a Estados supostamente autônomos. Rondônia, Acre, Amapá e Roraima, cujas populações, somadas, representam 1,76% do total do país, elegem 12 senadores em seu conjunto; São Paulo, com 22% da população brasileira, deve contentar-se com seus três. A despeito de todas as teorias a respeito das funções constitucionais do Senado, parece haver injustiça em forçar uma igualdade entre os gritantemente desiguais. Dentro desse quadro, não causaria muito espanto a solução unicameral, embora na Câmara dos Deputados também haja uma absurda distribuição das representações, desde que, aos pequenos Estados, com diminuta população, se assegura um mínimo de oito deputados. A regra, que veio do Direito Constitucional a toques de clarim, com o fito de assegurar maioria à falecida Arena, conseguiu sobreviver à Constituição cidadã de 1988, por obra de alguma misteriosa negociação política.

    Ninguém imaginaria agora um Senado tão respeitável quanto aquele que Machado de Assis descreveu numa crônica excelente, sob o título de O velho Senado. Mas desejaríamos pelo menos uma corporação que cultivasse a austeridade e não envergonhasse e indignasse os seus eleitores.

    17-07-2009 00:00:00

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  • Vexames do Senado

    As últimas revelações sobre os desmandos e as irregularidades do Senado da República geram, em qualquer cidadão de mediana consciência política, sentimentos de vária natureza: vergonha, raiva, desprezo, revolta, indignação. Vergonha, sim, embora não tenhamos nenhuma responsabilidade solidária com a patifaria, porque desejaríamos que as instituições nacionais nos honrassem perante o mundo, e que não ficássemos, os brasileiros, na triste condição de cidadãos de uma República de piratas. Raiva, também, porque assistimos, indefesos e inertes, à dilapidação dos recursos públicos e dos tributos que recolhemos ao erário. Desprezo maior pelos pais da pátria que alienam a própria honra em troca de miudezas eleitoreiras, ou que silenciaram, durante muito tempo, em face da evidência dos desmandos, do excesso de mordomias e de privilégios. Revolta e indignação, para não dizer mais, diante da gravidade das injustiças e atentados à ordem jurídica, que justificariam um recall coletivo, caso existisse tal instituto na Constituição brasileira. Pois, convenhamos, não há senador que se possa dizer inocente, diante do quadro de irregularidades que agora se desnudam. Haveria algum distraído que ignorasse o número espantoso de diretores? Haveria quem não soubesse dos assessores dispensados de frequência à Casa, dos mordomos em serviço domiciliar e privado, ou das casas funcionais postas a benefício de parentes? Os 663 atos secretos foram tão secretos assim, que não chegassem jamais ao ouvido dos atilados senadores?

    Em realidade, os vexames em que se afundou o Senado da República não surpreendem muito. A tolerância e o compadrismo com que foram tratados outros episódios de falta de decoro antecipavam a desmoralização em que agora mergulha a Casa.

    Há muito tempo que se reclamam reformas na estrutura daquela ala do Con-

    gresso, sobretudo pela estranhíssima presença de suplentes que se elegem na carona dos titulares, sem disputar eleições, e tão desconhecidos e secretos, que o próprio eleitorado não os identifica. Hão de fortalecer-se agora as sugestões do unicameralismo, que não se coaduna com a República federativa. Nunca se concebeu federação sem uma câmara territorial, onde as unidades federadas estejam igualmente representadas. Entretanto, sabemos que um centralismo crescente está destruindo o sonho da federação, e o país cada vez mais se assemelha a uma República unitária, sobretudo depois que os Estados perderam respeitabilidade, com a promoção precipitada de territórios federais a Estados supostamente autônomos. Rondônia, Acre, Amapá e Roraima, cujas populações, somadas, representam 1,76% do total do país, elegem 12 senadores em seu conjunto; São Paulo, com 22% da população brasileira, deve contentar-se com seus três. A despeito de todas as teorias a respeito das funções constitucionais do Senado, parece haver injustiça em forçar uma igualdade entre os gritantemente desiguais. Dentro desse quadro, não causaria muito espanto a solução unicameral, embora na Câmara dos Deputados também haja uma absurda distribuição das representações, desde que, aos pequenos Estados, com diminuta população, se assegura um mínimo de oito deputados. A regra, que veio do Direito Constitucional a toques de clarim, com o fito de assegurar maioria à falecida Arena, conseguiu sobreviver à Constituição cidadã de 1988, por obra de alguma misteriosa negociação política.

    Ninguém imaginaria agora um Senado tão respeitável quanto aquele que Machado de Assis descreveu numa crônica excelente, sob o título de O velho Senado. Mas desejaríamos pelo menos uma corporação que cultivasse a austeridade e não envergonhasse e indignasse os seus eleitores.

    17-07-2009 00:00:00

    saiba mais
  • Reforma dos políticos

    Os recentes casos de malversação de verbas públicas que atingem gravemente a imagem do Congresso Nacional não serão abolidos com uma reforma política. É absolutamente improvável que a majoritária composição do atual parlamento — classificada por decanos da política e do jornalismo como a pior dos últimos tempos — aprove propostas que sepultem práticas reprováveis arraigadamente exercidas sob a alegada égide da legalidade, mas, flagrantemente, desprovidas de ética e legitimidade. 

    Não precisamos de uma reforma política. Necessitamos, sim, e com urgência, da reforma dos políticos. Somente um Congresso renovado, com o afastamento da vida pública, por meio do voto popular consciente, daqueles que comprovadamente não reúnem condições de representar os interesses da sociedade, será capaz de promover mudanças efetivas. 

    As transformações pelas quais o parlamento deve passar não podem se restringir ao controle das verbas públicas por ele administradas. É preciso resgatar o cumprimento de sua missão constitucional — hoje fragilmente exercida — de fiscalizar com rigor a aplicação dos impostos arrecadados pelo Poder Executivo Federal, em cujas mãos a malversação não é menos grave. 

    Aliás, de um modo geral, o quadro de desrespeito ao bem público e de leniência na função supervisora é o mesmo para Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores em relação a governos estaduais e municipais. É um cenário que, obviamente, não minimiza os problemas registrados na Câmara, onde a eleição é proporcional, e no Senado, cuja votação é majoritária. Mas mostra que tudo pioraria se todos fossem obrigados a votar exclusivamente nas legendas (listas fechadas) ou em candidatos que dominam currais eleitorais (voto distrital) — duas propostas contidas na almejada reforma política.

     A transparência é o caminho para que o voto se torne realmente um instrumento de seleção criteriosa dos candidatos. Transparência na divulgação, sem cortes, da biografia de todos os concorrentes. Fim do voto secreto e dos atos secretos. Transparência no uso das verbas públicas por todos os agentes dos três poderes em seus três níveis de administração. Aprimoramento do controle técnico e burocrático pelo controle político e social. 

    Com tudo às claras e acessível via internet, poderá ser feita a reforma dos políticos, com os eleitores rejeitando aqueles cujas biografias já os reprovam e evitando a renovação dos mandatos dos que não se mostrem merecedores de mais um crédito de confiança.

    16-07-2009 00:00:00

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  • Reforma dos políticos

    Os recentes casos de malversação de verbas públicas que atingem gravemente a imagem do Congresso Nacional não serão abolidos com uma reforma política. É absolutamente improvável que a majoritária composição do atual parlamento — classificada por decanos da política e do jornalismo como a pior dos últimos tempos — aprove propostas que sepultem práticas reprováveis arraigadamente exercidas sob a alegada égide da legalidade, mas, flagrantemente, desprovidas de ética e legitimidade. 

    Não precisamos de uma reforma política. Necessitamos, sim, e com urgência, da reforma dos políticos. Somente um Congresso renovado, com o afastamento da vida pública, por meio do voto popular consciente, daqueles que comprovadamente não reúnem condições de representar os interesses da sociedade, será capaz de promover mudanças efetivas. 

    As transformações pelas quais o parlamento deve passar não podem se restringir ao controle das verbas públicas por ele administradas. É preciso resgatar o cumprimento de sua missão constitucional — hoje fragilmente exercida — de fiscalizar com rigor a aplicação dos impostos arrecadados pelo Poder Executivo Federal, em cujas mãos a malversação não é menos grave. 

    Aliás, de um modo geral, o quadro de desrespeito ao bem público e de leniência na função supervisora é o mesmo para Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores em relação a governos estaduais e municipais. É um cenário que, obviamente, não minimiza os problemas registrados na Câmara, onde a eleição é proporcional, e no Senado, cuja votação é majoritária. Mas mostra que tudo pioraria se todos fossem obrigados a votar exclusivamente nas legendas (listas fechadas) ou em candidatos que dominam currais eleitorais (voto distrital) — duas propostas contidas na almejada reforma política.

     A transparência é o caminho para que o voto se torne realmente um instrumento de seleção criteriosa dos candidatos. Transparência na divulgação, sem cortes, da biografia de todos os concorrentes. Fim do voto secreto e dos atos secretos. Transparência no uso das verbas públicas por todos os agentes dos três poderes em seus três níveis de administração. Aprimoramento do controle técnico e burocrático pelo controle político e social. 

    Com tudo às claras e acessível via internet, poderá ser feita a reforma dos políticos, com os eleitores rejeitando aqueles cujas biografias já os reprovam e evitando a renovação dos mandatos dos que não se mostrem merecedores de mais um crédito de confiança.

    16-07-2009 00:00:00

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  • Reforma dos políticos

    Os recentes casos de malversação de verbas públicas que atingem gravemente a imagem do Congresso Nacional não serão abolidos com uma reforma política. É absolutamente improvável que a majoritária composição do atual parlamento — classificada por decanos da política e do jornalismo como a pior dos últimos tempos — aprove propostas que sepultem práticas reprováveis arraigadamente exercidas sob a alegada égide da legalidade, mas, flagrantemente, desprovidas de ética e legitimidade. 

    Não precisamos de uma reforma política. Necessitamos, sim, e com urgência, da reforma dos políticos. Somente um Congresso renovado, com o afastamento da vida pública, por meio do voto popular consciente, daqueles que comprovadamente não reúnem condições de representar os interesses da sociedade, será capaz de promover mudanças efetivas. 

    As transformações pelas quais o parlamento deve passar não podem se restringir ao controle das verbas públicas por ele administradas. É preciso resgatar o cumprimento de sua missão constitucional — hoje fragilmente exercida — de fiscalizar com rigor a aplicação dos impostos arrecadados pelo Poder Executivo Federal, em cujas mãos a malversação não é menos grave. 

    Aliás, de um modo geral, o quadro de desrespeito ao bem público e de leniência na função supervisora é o mesmo para Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores em relação a governos estaduais e municipais. É um cenário que, obviamente, não minimiza os problemas registrados na Câmara, onde a eleição é proporcional, e no Senado, cuja votação é majoritária. Mas mostra que tudo pioraria se todos fossem obrigados a votar exclusivamente nas legendas (listas fechadas) ou em candidatos que dominam currais eleitorais (voto distrital) — duas propostas contidas na almejada reforma política.

     A transparência é o caminho para que o voto se torne realmente um instrumento de seleção criteriosa dos candidatos. Transparência na divulgação, sem cortes, da biografia de todos os concorrentes. Fim do voto secreto e dos atos secretos. Transparência no uso das verbas públicas por todos os agentes dos três poderes em seus três níveis de administração. Aprimoramento do controle técnico e burocrático pelo controle político e social. 

    Com tudo às claras e acessível via internet, poderá ser feita a reforma dos políticos, com os eleitores rejeitando aqueles cujas biografias já os reprovam e evitando a renovação dos mandatos dos que não se mostrem merecedores de mais um crédito de confiança.

    16-07-2009 00:00:00

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  • A magia do jornalismo

    Gay Talese, um dos fundadores do New Journalism (novo jornalismo), uma maneira de descrever a realidade com o cuidado e o talento de quem escreve um romance, foi a grande estrela da Festa Literária Internacional de Paraty. Sua crítica da mídia pode parecer radical e ultrapassada. Mas não é. Na verdade, Talese é um enamorado do jornalismo de qualidade. E a boa informação, independentemente da plataforma, reclama talento, rigor e paixão.
    Segundo Talese, a crise do jornalismo está intimamente relacionada com o declínio da reportagem clássica. ‘Acho que o jornalismo e não o Times, está sendo ameaçado pela internet’, disse Talese à revista Época. ‘E o principal motivo é que a internet faz o trabalho de um jornalista parecer fácil. Quando você liga o laptop em sua cozinha, ou em qualquer lugar, tem a sensação de que está conectado com o mundo. Em Pequim, Barcelona ou Nova York... Todos estão olhando para uma tela de alguns centímetros. Pensam que são jornalistas, mas estão ali sentados, e não na rua. O mundo deles está dentro de uma sala, a cabeça está numa pequena tela, e esse é o seu universo. Quando querem saber algo, perguntam ao Google. Estão comprometidos apenas com as perguntas que fazem. Não se chocam acidentalmente com nada que estimule a pensar ou a imaginar. Às vezes, em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. É aí que você descobre a vida como ela realmente é vivida’.
    A crítica de Talese, algo precipitada e injusta com o jornalismo digital, é um diagnóstico certeiro da crise do jornalismo impresso. Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram, incessantemente, bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões. Será? É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico ‘O Senhor dos Anéis’ e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real. Mas não é só a juventude que foge dos jornais. A chamada elite, classes A e B, também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o mágico mundo da cultura impressa? Creio que não. O que falta, estou certo, é realismo e qualidade.
    A receita de Talese demanda forte qualificação profissional. ‘A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. A notícia tem de ser escrita como ficção, algo para ser lido com prazer. Jornalistas têm de escrever tão bem quanto romancistas’. Eis um magnífico roteiro e um formidável desafio para a conquista de novos leitores: garra, elegância, rigor, relevância.
    A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso seduzir o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.
    Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. É hora de proceder às oportunas retificações de rumo. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente reiterada pelo jornalista Ruy Mesquita: o bom jornalismo é ‘sempre artesanato.’

    Texto publicado em 13/07/09, no Globo

    14-07-2009 00:00:00

    saiba mais
  • A magia do jornalismo

    Gay Talese, um dos fundadores do New Journalism (novo jornalismo), uma maneira de descrever a realidade com o cuidado e o talento de quem escreve um romance, foi a grande estrela da Festa Literária Internacional de Paraty. Sua crítica da mídia pode parecer radical e ultrapassada. Mas não é. Na verdade, Talese é um enamorado do jornalismo de qualidade. E a boa informação, independentemente da plataforma, reclama talento, rigor e paixão.
    Segundo Talese, a crise do jornalismo está intimamente relacionada com o declínio da reportagem clássica. ‘Acho que o jornalismo e não o Times, está sendo ameaçado pela internet’, disse Talese à revista Época. ‘E o principal motivo é que a internet faz o trabalho de um jornalista parecer fácil. Quando você liga o laptop em sua cozinha, ou em qualquer lugar, tem a sensação de que está conectado com o mundo. Em Pequim, Barcelona ou Nova York... Todos estão olhando para uma tela de alguns centímetros. Pensam que são jornalistas, mas estão ali sentados, e não na rua. O mundo deles está dentro de uma sala, a cabeça está numa pequena tela, e esse é o seu universo. Quando querem saber algo, perguntam ao Google. Estão comprometidos apenas com as perguntas que fazem. Não se chocam acidentalmente com nada que estimule a pensar ou a imaginar. Às vezes, em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. É aí que você descobre a vida como ela realmente é vivida’.
    A crítica de Talese, algo precipitada e injusta com o jornalismo digital, é um diagnóstico certeiro da crise do jornalismo impresso. Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram, incessantemente, bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões. Será? É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico ‘O Senhor dos Anéis’ e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real. Mas não é só a juventude que foge dos jornais. A chamada elite, classes A e B, também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o mágico mundo da cultura impressa? Creio que não. O que falta, estou certo, é realismo e qualidade.
    A receita de Talese demanda forte qualificação profissional. ‘A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. A notícia tem de ser escrita como ficção, algo para ser lido com prazer. Jornalistas têm de escrever tão bem quanto romancistas’. Eis um magnífico roteiro e um formidável desafio para a conquista de novos leitores: garra, elegância, rigor, relevância.
    A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso seduzir o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.
    Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. É hora de proceder às oportunas retificações de rumo. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente reiterada pelo jornalista Ruy Mesquita: o bom jornalismo é ‘sempre artesanato.’

    Texto publicado em 13/07/09, no Globo

    14-07-2009 00:00:00

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  • A magia do jornalismo

    Gay Talese, um dos fundadores do New Journalism (novo jornalismo), uma maneira de descrever a realidade com o cuidado e o talento de quem escreve um romance, foi a grande estrela da Festa Literária Internacional de Paraty. Sua crítica da mídia pode parecer radical e ultrapassada. Mas não é. Na verdade, Talese é um enamorado do jornalismo de qualidade. E a boa informação, independentemente da plataforma, reclama talento, rigor e paixão.
    Segundo Talese, a crise do jornalismo está intimamente relacionada com o declínio da reportagem clássica. ‘Acho que o jornalismo e não o Times, está sendo ameaçado pela internet’, disse Talese à revista Época. ‘E o principal motivo é que a internet faz o trabalho de um jornalista parecer fácil. Quando você liga o laptop em sua cozinha, ou em qualquer lugar, tem a sensação de que está conectado com o mundo. Em Pequim, Barcelona ou Nova York... Todos estão olhando para uma tela de alguns centímetros. Pensam que são jornalistas, mas estão ali sentados, e não na rua. O mundo deles está dentro de uma sala, a cabeça está numa pequena tela, e esse é o seu universo. Quando querem saber algo, perguntam ao Google. Estão comprometidos apenas com as perguntas que fazem. Não se chocam acidentalmente com nada que estimule a pensar ou a imaginar. Às vezes, em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. É aí que você descobre a vida como ela realmente é vivida’.
    A crítica de Talese, algo precipitada e injusta com o jornalismo digital, é um diagnóstico certeiro da crise do jornalismo impresso. Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram, incessantemente, bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões. Será? É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico ‘O Senhor dos Anéis’ e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real. Mas não é só a juventude que foge dos jornais. A chamada elite, classes A e B, também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o mágico mundo da cultura impressa? Creio que não. O que falta, estou certo, é realismo e qualidade.
    A receita de Talese demanda forte qualificação profissional. ‘A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. A notícia tem de ser escrita como ficção, algo para ser lido com prazer. Jornalistas têm de escrever tão bem quanto romancistas’. Eis um magnífico roteiro e um formidável desafio para a conquista de novos leitores: garra, elegância, rigor, relevância.
    A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso seduzir o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.
    Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. É hora de proceder às oportunas retificações de rumo. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente reiterada pelo jornalista Ruy Mesquita: o bom jornalismo é ‘sempre artesanato.’

    Texto publicado em 13/07/09, no Globo

    14-07-2009 00:00:00

    saiba mais
  • O futuro chegou

    Estamos vivendo uma nova realidade econômica, social e política em nosso estado que exige de nós tirar os olhos do passado e lançar nosso foco no futuro. Há alguns anos, quando se falava sobre o estado do Rio de Janeiro, o sentimento predominante era o de que a nós, ex-capital do País, restava o desafio de lidar com os problemas da fusão e encontrar nossas vocações. Girávamos em círculos e faltava-nos fôlego para investir nos projetos considerados fundamentais para integrar o estado e semear uma nova realidade.

    Receitas mirabolantes foram sucessivamente lançadas e tidas temporariamente como a grande solução para um ou muitos problemas, mas nenhuma delas saía do papel, alimentando a desesperança e o sentimento de nostalgia pelo que pensamos ser um dia.

    Exemplos claros deste imobilismo, projetos que pareciam ficção como o Arco Metropolitano, a revitalização do Porto do Rio e a expansão do Metrô, hoje estão saindo do papel e nos mostram que, de fato, só são possíveis porque há sintonia, integração e sinergia entre a iniciativa privada e os governos federal, estadual e municipal. E, mais do que isso, porque fazem parte de uma ação integrada que tem buscado garantir aos empresários um ambiente seguro para investir e à população condições para que ela possa se integrar a este novo momento preparada para as oportunidades que estão se abrindo.

    Saindo do papel, estes projetos viabilizam novos negócios, desobstruem vias, criam novas centralidades. Somam-se a eles, outras grandes obras como o Porto do Açu, em São João da Barra, o Complexo Petroquímico, em Itaboraí, a Companhia Siderúrgica do Atlântico, dentre outros, trazendo consigo o desafio permanente de nos anteciparmos aos problemas, termos agilidade para tomar as decisões certas e diminuir os impactos ambientais e sociais que eles trazem consigo.

    É impossível não ser otimista. Mas pela primeira vez, em muitos anos, estamos sendo chamados a definir também onde queremos chegar. Por isso a necessidade de planejar. Exigir das prefeituras Planos Diretores, ampliar e aprofundar as parcerias com a sociedade e as universidades, ter uma máquina administrativa ágil e competente, lutar por uma educação que possa preparar nossos jovens, enfim: agir. Tudo isso já é parte do presente. E traz para o nosso dia-a-dia a prosperidade e a qualidade de vida que antes eram apenas promessas de futuro.

    11-07-2009 00:00:00

    saiba mais
  • O futuro chegou

    Estamos vivendo uma nova realidade econômica, social e política em nosso estado que exige de nós tirar os olhos do passado e lançar nosso foco no futuro. Há alguns anos, quando se falava sobre o estado do Rio de Janeiro, o sentimento predominante era o de que a nós, ex-capital do País, restava o desafio de lidar com os problemas da fusão e encontrar nossas vocações. Girávamos em círculos e faltava-nos fôlego para investir nos projetos considerados fundamentais para integrar o estado e semear uma nova realidade.

    Receitas mirabolantes foram sucessivamente lançadas e tidas temporariamente como a grande solução para um ou muitos problemas, mas nenhuma delas saía do papel, alimentando a desesperança e o sentimento de nostalgia pelo que pensamos ser um dia.

    Exemplos claros deste imobilismo, projetos que pareciam ficção como o Arco Metropolitano, a revitalização do Porto do Rio e a expansão do Metrô, hoje estão saindo do papel e nos mostram que, de fato, só são possíveis porque há sintonia, integração e sinergia entre a iniciativa privada e os governos federal, estadual e municipal. E, mais do que isso, porque fazem parte de uma ação integrada que tem buscado garantir aos empresários um ambiente seguro para investir e à população condições para que ela possa se integrar a este novo momento preparada para as oportunidades que estão se abrindo.

    Saindo do papel, estes projetos viabilizam novos negócios, desobstruem vias, criam novas centralidades. Somam-se a eles, outras grandes obras como o Porto do Açu, em São João da Barra, o Complexo Petroquímico, em Itaboraí, a Companhia Siderúrgica do Atlântico, dentre outros, trazendo consigo o desafio permanente de nos anteciparmos aos problemas, termos agilidade para tomar as decisões certas e diminuir os impactos ambientais e sociais que eles trazem consigo.

    É impossível não ser otimista. Mas pela primeira vez, em muitos anos, estamos sendo chamados a definir também onde queremos chegar. Por isso a necessidade de planejar. Exigir das prefeituras Planos Diretores, ampliar e aprofundar as parcerias com a sociedade e as universidades, ter uma máquina administrativa ágil e competente, lutar por uma educação que possa preparar nossos jovens, enfim: agir. Tudo isso já é parte do presente. E traz para o nosso dia-a-dia a prosperidade e a qualidade de vida que antes eram apenas promessas de futuro.

    11-07-2009 00:00:00

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  • O futuro chegou

    Estamos vivendo uma nova realidade econômica, social e política em nosso estado que exige de nós tirar os olhos do passado e lançar nosso foco no futuro. Há alguns anos, quando se falava sobre o estado do Rio de Janeiro, o sentimento predominante era o de que a nós, ex-capital do País, restava o desafio de lidar com os problemas da fusão e encontrar nossas vocações. Girávamos em círculos e faltava-nos fôlego para investir nos projetos considerados fundamentais para integrar o estado e semear uma nova realidade.

    Receitas mirabolantes foram sucessivamente lançadas e tidas temporariamente como a grande solução para um ou muitos problemas, mas nenhuma delas saía do papel, alimentando a desesperança e o sentimento de nostalgia pelo que pensamos ser um dia.

    Exemplos claros deste imobilismo, projetos que pareciam ficção como o Arco Metropolitano, a revitalização do Porto do Rio e a expansão do Metrô, hoje estão saindo do papel e nos mostram que, de fato, só são possíveis porque há sintonia, integração e sinergia entre a iniciativa privada e os governos federal, estadual e municipal. E, mais do que isso, porque fazem parte de uma ação integrada que tem buscado garantir aos empresários um ambiente seguro para investir e à população condições para que ela possa se integrar a este novo momento preparada para as oportunidades que estão se abrindo.

    Saindo do papel, estes projetos viabilizam novos negócios, desobstruem vias, criam novas centralidades. Somam-se a eles, outras grandes obras como o Porto do Açu, em São João da Barra, o Complexo Petroquímico, em Itaboraí, a Companhia Siderúrgica do Atlântico, dentre outros, trazendo consigo o desafio permanente de nos anteciparmos aos problemas, termos agilidade para tomar as decisões certas e diminuir os impactos ambientais e sociais que eles trazem consigo.

    É impossível não ser otimista. Mas pela primeira vez, em muitos anos, estamos sendo chamados a definir também onde queremos chegar. Por isso a necessidade de planejar. Exigir das prefeituras Planos Diretores, ampliar e aprofundar as parcerias com a sociedade e as universidades, ter uma máquina administrativa ágil e competente, lutar por uma educação que possa preparar nossos jovens, enfim: agir. Tudo isso já é parte do presente. E traz para o nosso dia-a-dia a prosperidade e a qualidade de vida que antes eram apenas promessas de futuro.

    11-07-2009 00:00:00

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  • Os meninos-lobo

    ‘Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo’

    No velho conto de Rudyard Kipling Mogli, o Menino-Lobo, o autor descreve uma criança que, adotada por uma loba, cresce sem jamais haver usado uma só palavra humana, até ser encontrada e se integrar à sociedade. O conto é atraente, mas cientificamente absurdo. Porém, houve outros casos, supostamente reais, de crianças criadas por animais. E também casos reais (até recentes) de crianças que cresceram isoladas e sem oportunidades de aprender a falar.

    Faz tempo, meninos-lobo e outros jovens criados sem interação humana despertaram o interesse da psicologia cognitiva e da linguística. A razão é que seriam um experimento natural que permitiria responder a uma pergunta crucial: esses jovens, sem conhecer palavras, poderiam pensar como os demais humanos?

    A questão em pauta era decidir se pensamos porque temos palavras ou se seria possível pensar sem elas. Como os meninos-lobo não conheciam palavras, se podiam pensar, teria de ser sem elas. Nos diferentes casos de crianças criadas em isolamento, ficou clara a enorme dificuldade de ajustamento que elas encontraram ao ser reabsorvidas pela sociedade. Muitas jamais se ajustaram, fosse pelo trauma do isolamento, fosse pela impossibilidade de pensar humanamente sem palavras. Mas o fato é que não desenvolveram um raciocínio (abstrato) classicamente humano.

    O interesse pelos meninos-lobo feneceu. Mas se aprendeu muito desde então, e hoje não se acredita que o pensamento sem palavras seja possível - pelo menos, o pensamento simbólico que é a marca dos seres humanos. Ou seja, Mogli não seria capaz de pensar.

    Vivemos em um mundo de palavras, diz o celebrado antropólogo Richard Leakey. Nossos pensamentos, o mundo de nossa imaginação, nossas comunicações e nossa rica cultura são tecidos nos teares da linguagem... A linguagem é o nosso meio... É a linguagem que separa os humanos do resto da natureza. Para o neuropaleontólogo Harry Jerison, precisamos de um cérebro grande (três vezes maior do que o de outros primatas) para lidar com as exigências da linguagem.

    Portanto, se pensamos com palavras e com as conexões entre elas, a nossa capacidade de usar palavras tem muito a ver com a nossa capacidade de pensar. Dito de outra forma, pensar bem é o resultado de saber lidar com palavras e com a sintaxe que conecta uma com a outra. O psicólogo Howard Gardner, com sua tese sobre as múltiplas inteligências, talvez diga que Garrincha tinha uma inteligência futebolística que não transitava por palavras. Mas grande parte do nosso mundo moderno requer a inteligência que se estrutura por intermédio das palavras. Quem não aprendeu bem a usar palavras não sabe pensar. No limite, quem sabe poucas palavras ou as usa mal tem um pensamento encolhido.

    Talvez veredicto mais brutal sobre o assunto tenha sido oferecido pelo filósofo Ludwig Wittgenstein: Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento. Simplificando um pouco, o bem pensar quase que se confunde com a competência de bem usar as palavras. Nesse particular não temos dúvidas: a educação tem muitíssimo a ver com o desenvolvimento da nossa capacidade de usar a linguagem. Portanto, o bom ensino tem como alvo número 1 a competência linguística.

    Pelos testes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), na

    Ao estudar a Inconfidência Mineira, a teoria da evolução das espécies ou os afluentes do Amazonas, o aprendizado mais importante se dá no manejo da língua. É ler com fluência e entender o que está escrito. É expressar-se por escrito com precisão e elegância. É transitar na relação rigorosa entre palavras e significados.

    No conto, Mogli se ajustou à vida civilizada. Infelizmente para nós, Kipling estava cientificamente errado. Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo.

    Fonte: Coluna do economista Claudio de Moura Castro publicado na revista VEJA de 8 de julho.

    10-07-2009 00:00:00

    saiba mais
  • Os meninos-lobo

    ‘Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo’

    No velho conto de Rudyard Kipling Mogli, o Menino-Lobo, o autor descreve uma criança que, adotada por uma loba, cresce sem jamais haver usado uma só palavra humana, até ser encontrada e se integrar à sociedade. O conto é atraente, mas cientificamente absurdo. Porém, houve outros casos, supostamente reais, de crianças criadas por animais. E também casos reais (até recentes) de crianças que cresceram isoladas e sem oportunidades de aprender a falar.

    Faz tempo, meninos-lobo e outros jovens criados sem interação humana despertaram o interesse da psicologia cognitiva e da linguística. A razão é que seriam um experimento natural que permitiria responder a uma pergunta crucial: esses jovens, sem conhecer palavras, poderiam pensar como os demais humanos?

    A questão em pauta era decidir se pensamos porque temos palavras ou se seria possível pensar sem elas. Como os meninos-lobo não conheciam palavras, se podiam pensar, teria de ser sem elas. Nos diferentes casos de crianças criadas em isolamento, ficou clara a enorme dificuldade de ajustamento que elas encontraram ao ser reabsorvidas pela sociedade. Muitas jamais se ajustaram, fosse pelo trauma do isolamento, fosse pela impossibilidade de pensar humanamente sem palavras. Mas o fato é que não desenvolveram um raciocínio (abstrato) classicamente humano.

    O interesse pelos meninos-lobo feneceu. Mas se aprendeu muito desde então, e hoje não se acredita que o pensamento sem palavras seja possível - pelo menos, o pensamento simbólico que é a marca dos seres humanos. Ou seja, Mogli não seria capaz de pensar.

    Vivemos em um mundo de palavras, diz o celebrado antropólogo Richard Leakey. Nossos pensamentos, o mundo de nossa imaginação, nossas comunicações e nossa rica cultura são tecidos nos teares da linguagem... A linguagem é o nosso meio... É a linguagem que separa os humanos do resto da natureza. Para o neuropaleontólogo Harry Jerison, precisamos de um cérebro grande (três vezes maior do que o de outros primatas) para lidar com as exigências da linguagem.

    Portanto, se pensamos com palavras e com as conexões entre elas, a nossa capacidade de usar palavras tem muito a ver com a nossa capacidade de pensar. Dito de outra forma, pensar bem é o resultado de saber lidar com palavras e com a sintaxe que conecta uma com a outra. O psicólogo Howard Gardner, com sua tese sobre as múltiplas inteligências, talvez diga que Garrincha tinha uma inteligência futebolística que não transitava por palavras. Mas grande parte do nosso mundo moderno requer a inteligência que se estrutura por intermédio das palavras. Quem não aprendeu bem a usar palavras não sabe pensar. No limite, quem sabe poucas palavras ou as usa mal tem um pensamento encolhido.

    Talvez veredicto mais brutal sobre o assunto tenha sido oferecido pelo filósofo Ludwig Wittgenstein: Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento. Simplificando um pouco, o bem pensar quase que se confunde com a competência de bem usar as palavras. Nesse particular não temos dúvidas: a educação tem muitíssimo a ver com o desenvolvimento da nossa capacidade de usar a linguagem. Portanto, o bom ensino tem como alvo número 1 a competência linguística.

    Pelos testes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), na

    Ao estudar a Inconfidência Mineira, a teoria da evolução das espécies ou os afluentes do Amazonas, o aprendizado mais importante se dá no manejo da língua. É ler com fluência e entender o que está escrito. É expressar-se por escrito com precisão e elegância. É transitar na relação rigorosa entre palavras e significados.

    No conto, Mogli se ajustou à vida civilizada. Infelizmente para nós, Kipling estava cientificamente errado. Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo.

    Fonte: Coluna do economista Claudio de Moura Castro publicado na revista VEJA de 8 de julho.

    10-07-2009 00:00:00

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  • Os meninos-lobo

    ‘Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo’

    No velho conto de Rudyard Kipling Mogli, o Menino-Lobo, o autor descreve uma criança que, adotada por uma loba, cresce sem jamais haver usado uma só palavra humana, até ser encontrada e se integrar à sociedade. O conto é atraente, mas cientificamente absurdo. Porém, houve outros casos, supostamente reais, de crianças criadas por animais. E também casos reais (até recentes) de crianças que cresceram isoladas e sem oportunidades de aprender a falar.

    Faz tempo, meninos-lobo e outros jovens criados sem interação humana despertaram o interesse da psicologia cognitiva e da linguística. A razão é que seriam um experimento natural que permitiria responder a uma pergunta crucial: esses jovens, sem conhecer palavras, poderiam pensar como os demais humanos?

    A questão em pauta era decidir se pensamos porque temos palavras ou se seria possível pensar sem elas. Como os meninos-lobo não conheciam palavras, se podiam pensar, teria de ser sem elas. Nos diferentes casos de crianças criadas em isolamento, ficou clara a enorme dificuldade de ajustamento que elas encontraram ao ser reabsorvidas pela sociedade. Muitas jamais se ajustaram, fosse pelo trauma do isolamento, fosse pela impossibilidade de pensar humanamente sem palavras. Mas o fato é que não desenvolveram um raciocínio (abstrato) classicamente humano.

    O interesse pelos meninos-lobo feneceu. Mas se aprendeu muito desde então, e hoje não se acredita que o pensamento sem palavras seja possível - pelo menos, o pensamento simbólico que é a marca dos seres humanos. Ou seja, Mogli não seria capaz de pensar.

    Vivemos em um mundo de palavras, diz o celebrado antropólogo Richard Leakey. Nossos pensamentos, o mundo de nossa imaginação, nossas comunicações e nossa rica cultura são tecidos nos teares da linguagem... A linguagem é o nosso meio... É a linguagem que separa os humanos do resto da natureza. Para o neuropaleontólogo Harry Jerison, precisamos de um cérebro grande (três vezes maior do que o de outros primatas) para lidar com as exigências da linguagem.

    Portanto, se pensamos com palavras e com as conexões entre elas, a nossa capacidade de usar palavras tem muito a ver com a nossa capacidade de pensar. Dito de outra forma, pensar bem é o resultado de saber lidar com palavras e com a sintaxe que conecta uma com a outra. O psicólogo Howard Gardner, com sua tese sobre as múltiplas inteligências, talvez diga que Garrincha tinha uma inteligência futebolística que não transitava por palavras. Mas grande parte do nosso mundo moderno requer a inteligência que se estrutura por intermédio das palavras. Quem não aprendeu bem a usar palavras não sabe pensar. No limite, quem sabe poucas palavras ou as usa mal tem um pensamento encolhido.

    Talvez veredicto mais brutal sobre o assunto tenha sido oferecido pelo filósofo Ludwig Wittgenstein: Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento. Simplificando um pouco, o bem pensar quase que se confunde com a competência de bem usar as palavras. Nesse particular não temos dúvidas: a educação tem muitíssimo a ver com o desenvolvimento da nossa capacidade de usar a linguagem. Portanto, o bom ensino tem como alvo número 1 a competência linguística.

    Pelos testes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), na

    Ao estudar a Inconfidência Mineira, a teoria da evolução das espécies ou os afluentes do Amazonas, o aprendizado mais importante se dá no manejo da língua. É ler com fluência e entender o que está escrito. É expressar-se por escrito com precisão e elegância. É transitar na relação rigorosa entre palavras e significados.

    No conto, Mogli se ajustou à vida civilizada. Infelizmente para nós, Kipling estava cientificamente errado. Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo.

    Fonte: Coluna do economista Claudio de Moura Castro publicado na revista VEJA de 8 de julho.

    10-07-2009 00:00:00

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  • A esperada reforma eleitoral

    São muitas as propostas da necessária reforma eleitoral, em tramitação pelo Congresso. A Câmara dos Deputados está prestes a aprovar o uso da internet pelos candidatos. Mas isso é apenas um simples detalhe. Entre as importantes propostas, estão o estabelecimento do mandato de cinco anos, sem reeleição para o Executivo; a coincidência de todos os mandatos; e o financiamento público das campanhas..

    A fixação do próximo mandato em cinco anos, sem a possibilidade de recondução de presidente, governadores e prefeitos, vai de encontro aos interesses nacionais, já que a reeleição, incluída casuíticamente na legislação, para manter FHC na presidência, e hoje aproveitada ao máximo por Lula, não atende aos altos interesses nacionais. É apenas a antidemocrática eternização do governantes e não interessa nem um pouco ao cidadão comum. A coincidência dos mandatos – realização de eleições para todos os níveis num só dia – foi tentada nos anos 80 e não deu certo, embora possa representar mais tranqüilidade aos governantes, que não sofreriam pressões eleitorais na metade do seu mandato, como agora, com pleitos a cada dois anos. Finalmente, o financiamento público de campanha, esse sim, consulta aos interesses nacionais mas, infelizmente, é o item de menor possibilidade de aprovação.

    A reeleição – já ficou provado – é um instituto antidemocrático, que beneficia quem está no poder em prejuízo dos demais. Presidente, governadores e prefeitos em exercício levam vantagens frente a seus concorrentes e, se inescrupulosos, ainda acabam utilizando a máquina pública para angariar votos. Por isso, precisa acabar o mais rápido possível. E um mandato de cinco anos (em vez de quatro) também é razoável para quem não terá a oportunidade de reeleição. Recorde-se que, antes do instituto da reeleição, os governantes deixavam a marca do seu período, pois sabiam da impossibilidade de continuar e até da incerteza de fazer o sucessor. Com a reeleição isso não acontece. Qual a grande obra de FHC? (O Real foi de Itamar Franco!) E a de Lula?

    A coincidência dos mandatos, essa sim, é controversa. Para estabelecê-la seria necessário fazer uma conta de chegar com mais anos de mandato para os atuais ou os futuros prefeitos, para que seus períodos de governo venham a coincidir com os do presidente e dos governadores. Isso tem de ser muito bem feito para ter eficácia e não cair no buraco negro como há quase 30 anos. Muitos políticos, ao perderem a eleição geral, já começam a campanha para a local, marcada para dois anos depois. Se estabelecida a coincidência, novas eleições só depois de quatro anos. Será que eles aguentam?

    O financiamento público das campanhas, este sim, é do mais alto interesse, pois evitará o uso do poder econômico e a eterna servidão dos candidatos (e governantes) às empreiteiras que financiaram suas campanhas. Se o governo, por seus meios, financiar as campanhas, e a Justiça Eleitoral for diligente para evitar o uso de outros recursos, as eleições serão mais democráticas e representativas e a nação estará livre da corrupção, pelo menos nesse setor. O Brasil precisa, urgentemente, criar regras mais contemporâneas para suas eleições e afastar o fantasma da corrupção, que ataca na campanha e suga a sociedade durante todo o mandato dos eleitos. Isso é prioridade, até uma questão de patriotismo...

    09-07-2009 00:00:00

    saiba mais
  • A esperada reforma eleitoral

    São muitas as propostas da necessária reforma eleitoral, em tramitação pelo Congresso. A Câmara dos Deputados está prestes a aprovar o uso da internet pelos candidatos. Mas isso é apenas um simples detalhe. Entre as importantes propostas, estão o estabelecimento do mandato de cinco anos, sem reeleição para o Executivo; a coincidência de todos os mandatos; e o financiamento público das campanhas..

    A fixação do próximo mandato em cinco anos, sem a possibilidade de recondução de presidente, governadores e prefeitos, vai de encontro aos interesses nacionais, já que a reeleição, incluída casuíticamente na legislação, para manter FHC na presidência, e hoje aproveitada ao máximo por Lula, não atende aos altos interesses nacionais. É apenas a antidemocrática eternização do governantes e não interessa nem um pouco ao cidadão comum. A coincidência dos mandatos – realização de eleições para todos os níveis num só dia – foi tentada nos anos 80 e não deu certo, embora possa representar mais tranqüilidade aos governantes, que não sofreriam pressões eleitorais na metade do seu mandato, como agora, com pleitos a cada dois anos. Finalmente, o financiamento público de campanha, esse sim, consulta aos interesses nacionais mas, infelizmente, é o item de menor possibilidade de aprovação.

    A reeleição – já ficou provado – é um instituto antidemocrático, que beneficia quem está no poder em prejuízo dos demais. Presidente, governadores e prefeitos em exercício levam vantagens frente a seus concorrentes e, se inescrupulosos, ainda acabam utilizando a máquina pública para angariar votos. Por isso, precisa acabar o mais rápido possível. E um mandato de cinco anos (em vez de quatro) também é razoável para quem não terá a oportunidade de reeleição. Recorde-se que, antes do instituto da reeleição, os governantes deixavam a marca do seu período, pois sabiam da impossibilidade de continuar e até da incerteza de fazer o sucessor. Com a reeleição isso não acontece. Qual a grande obra de FHC? (O Real foi de Itamar Franco!) E a de Lula?

    A coincidência dos mandatos, essa sim, é controversa. Para estabelecê-la seria necessário fazer uma conta de chegar com mais anos de mandato para os atuais ou os futuros prefeitos, para que seus períodos de governo venham a coincidir com os do presidente e dos governadores. Isso tem de ser muito bem feito para ter eficácia e não cair no buraco negro como há quase 30 anos. Muitos políticos, ao perderem a eleição geral, já começam a campanha para a local, marcada para dois anos depois. Se estabelecida a coincidência, novas eleições só depois de quatro anos. Será que eles aguentam?

    O financiamento público das campanhas, este sim, é do mais alto interesse, pois evitará o uso do poder econômico e a eterna servidão dos candidatos (e governantes) às empreiteiras que financiaram suas campanhas. Se o governo, por seus meios, financiar as campanhas, e a Justiça Eleitoral for diligente para evitar o uso de outros recursos, as eleições serão mais democráticas e representativas e a nação estará livre da corrupção, pelo menos nesse setor. O Brasil precisa, urgentemente, criar regras mais contemporâneas para suas eleições e afastar o fantasma da corrupção, que ataca na campanha e suga a sociedade durante todo o mandato dos eleitos. Isso é prioridade, até uma questão de patriotismo...

    09-07-2009 00:00:00

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    São muitas as propostas da necessária reforma eleitoral, em tramitação pelo Congresso. A Câmara dos Deputados está prestes a aprovar o uso da internet pelos candidatos. Mas isso é apenas um simples detalhe. Entre as importantes propostas, estão o estabelecimento do mandato de cinco anos, sem reeleição para o Executivo; a coincidência de todos os mandatos; e o financiamento público das campanhas..

    A fixação do próximo mandato em cinco anos, sem a possibilidade de recondução de presidente, governadores e prefeitos, vai de encontro aos interesses nacionais, já que a reeleição, incluída casuíticamente na legislação, para manter FHC na presidência, e hoje aproveitada ao máximo por Lula, não atende aos altos interesses nacionais. É apenas a antidemocrática eternização do governantes e não interessa nem um pouco ao cidadão comum. A coincidência dos mandatos – realização de eleições para todos os níveis num só dia – foi tentada nos anos 80 e não deu certo, embora possa representar mais tranqüilidade aos governantes, que não sofreriam pressões eleitorais na metade do seu mandato, como agora, com pleitos a cada dois anos. Finalmente, o financiamento público de campanha, esse sim, consulta aos interesses nacionais mas, infelizmente, é o item de menor possibilidade de aprovação.

    A reeleição – já ficou provado – é um instituto antidemocrático, que beneficia quem está no poder em prejuízo dos demais. Presidente, governadores e prefeitos em exercício levam vantagens frente a seus concorrentes e, se inescrupulosos, ainda acabam utilizando a máquina pública para angariar votos. Por isso, precisa acabar o mais rápido possível. E um mandato de cinco anos (em vez de quatro) também é razoável para quem não terá a oportunidade de reeleição. Recorde-se que, antes do instituto da reeleição, os governantes deixavam a marca do seu período, pois sabiam da impossibilidade de continuar e até da incerteza de fazer o sucessor. Com a reeleição isso não acontece. Qual a grande obra de FHC? (O Real foi de Itamar Franco!) E a de Lula?

    A coincidência dos mandatos, essa sim, é controversa. Para estabelecê-la seria necessário fazer uma conta de chegar com mais anos de mandato para os atuais ou os futuros prefeitos, para que seus períodos de governo venham a coincidir com os do presidente e dos governadores. Isso tem de ser muito bem feito para ter eficácia e não cair no buraco negro como há quase 30 anos. Muitos políticos, ao perderem a eleição geral, já começam a campanha para a local, marcada para dois anos depois. Se estabelecida a coincidência, novas eleições só depois de quatro anos. Será que eles aguentam?

    O financiamento público das campanhas, este sim, é do mais alto interesse, pois evitará o uso do poder econômico e a eterna servidão dos candidatos (e governantes) às empreiteiras que financiaram suas campanhas. Se o governo, por seus meios, financiar as campanhas, e a Justiça Eleitoral for diligente para evitar o uso de outros recursos, as eleições serão mais democráticas e representativas e a nação estará livre da corrupção, pelo menos nesse setor. O Brasil precisa, urgentemente, criar regras mais contemporâneas para suas eleições e afastar o fantasma da corrupção, que ataca na campanha e suga a sociedade durante todo o mandato dos eleitos. Isso é prioridade, até uma questão de patriotismo...

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